sábado, 31 de dezembro de 2011

Família - 31/12/2011


O reencontro familiar no fim do ano é um bálsamo nas feridas provocadas pelos doze meses de luta que, às vezes, nos separam do último encontro. Mesmo sem o contato diário, muitas vezes sem notícias frequentes, família é sinônimo de ninho, de mimos, de solidariedade.

Pois é nesse aconchego que sou provocado a comentar a situação do núcleo familiar homoafetivo, principalmente no encerrar do ano de 2011, quando finalmente o debate chegou ao cerne da questão e as relações homossexuais foram reconhecidas como base de núcleos familiares.

Durante 2011 o debate sobre nossas famílias diferentes esteve presente também no Congresso Nacional, onde senadores, deputados e convidados evangélicos se dedicaram a contorcer raciocínios e fabricar lógicas absurdas, como o fim das famílias ou da civilização humana, caso as uniões entre pessoas do mesmo sexo sejam reconhecidas. Como se todo ser humano fosse adotar as relações homossexuais como prática prioritária. O míope cidadão heterossexual pastoreado sequer considera a possibilidade de permanecer em sua própria heterossexualidade!

Na vida real, no raciocínio lógico, sem sofismas ou apelações, as famílias homoafetivas existem e são reconhecidas. Casais de gays e lésbicas se incorporam às comemorações natalinas como parte integrante e amada de grandes e tradicionais famílias, repleta de velhos, adultos, jovens e crianças, homens e mulheres que aprenderam a incorporar seus entes homossexuais como parte inevitável e fundamental para a alegria de ser família.

Em 2011, foi preciso que o movimento gay se indignasse, quando um partido político religioso foi à TV ratificar sua ideologia e contrapô-la aos novos desenhos familiares com que convivemos hoje em dia, entre eles os arranjos homossexuais. Pastores violadores dos direitos humanos chegaram a veicular outdoors onde expunham suas limitações conceituais e reafirmavam seu ódio aos que não se encaixavam no padrão papai-mamãe-filhinhos.

Nesse fim de ano, minha grande família não deixou de abrir os braços para nós. No momento em que completamos 20 anos juntos, eu e Marquinho recebemos o reconhecimento, o respeito e o carinho que aprendemos a retribuir e honrar.

Camisinha sempre!

sábado, 24 de dezembro de 2011

L-G-B-T - 24/12/2011



O movimento LGBT chega ao fim de 2011 com mais dúvidas do que soluções. Num ano em que nossas energias se voltaram para a defesa aos ataques de evangélicos raivosos e descontrolados, dedicamos tempo demais a re-explicar o óbvio, revertendo para o campo da razão valores como solidariedade, amor, compaixão, respeito; deturpados conforme os interesses de religiosos cafajestes. Fomos declarados inimigos número um dos fundamentalistas e tivemos nossa cidadania jogada na sarjeta em templos neo pentecostais, na TV e em lavagens cerebrais coletivas, como as marchas religiosas e os shows de músicas gospel.

Na defensiva, fechamos o ano com uma segunda conferência LGBT, onde o que menos fez sentido foi a junção dessas quatro letras, independente de sua ordem: GLBT, como queriam os gays; LGBT como querem as lésbicas; TLGB, como almejaram e perderam as travestis e transexuais. As lésbicas, em maior número na conferência, parte delas identificadas também com os bissexuais, fecharam questão sobre a inclusão de referências explícitas às mulheres lésbicas, à lesbianidade e à "lesbofobia" sempre que se falasse em homossexualidade e homofobia.

Outros grupos reivindicaram o mesmo direito, o que gerou textos esdrúxulos com destaques para recortes que sequer eram o tema central da conferência e que empurraram a orientação sexual e a identidade de gênero para um segundo plano, senão o último. Raça, etnia, credo, sexo, idade, territorialidade, foram incorporados a cada referência, antes mesmo da orientação sexual e identidade de gênero. Assim também, os termos racismo, sexismo, machismo e dezenas de outras formas de preconceito, entre elas o "capacitismo", que é o preconceito contra as pessoas julgadas incapazes por serem portadoras de necessidades especiais. Entre tantos excluídos a clamar pela lembrança de seu motivo de exclusão, a homofobia quase fica de fora.

A cada encontro LGBT é mais evidente a distância entre gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, díspares tanto em termos de organização e grau de conquistas de direitos, quanto de políticas públicas específicas. Isso aponta para uma transformação substancial no movimento homossexual. A necessidade de se marcar território tem nos tornado mais fracos e expostos a dificuldades que esses subgrupos enfrentam para se manterem juntos.

A luta pelos holofotes mais uma vez deixa no escuro os nossos verdadeiros inimigos, aqueles que definitivamente nos excluem e defendem o direito de não serem criminalizados por seus ataques e ofensas. Ou obstruem as políticas públicas que poderiam fazer valer os nossos.

Camisinha sempre!

sábado, 17 de dezembro de 2011

2ª Conferência - 17/12/2011



Desde quinta-feira, cerca de 800 cidadãos e cidadãs lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais encontram-se em Brasília para a 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas e Cidadania LGBT. Um evento ímpar, que só acontece no Brasil e que é construído em conjunto entre governo e sociedade civil.

O objetivo é colocar frente a frente gestores públicos e o controle social, para juntos avaliarem a realização das ações acordadas na última conferência e definir as que serão prioritariamente executadas até a próxima.

Já na abertura, a sociedade civil, capitaneada pela ABGLT, marcava o tom de cobrança e insatisfação com as recentes posições anti-LGBT assumidas pelo governo, como o veto ao material de apoio às escolas para o enfrentamento da homofobia, preparado pelo MEC e obstruído pela pressão da bancada evangélica no Congresso. Imediatamente após a composição da mesa de abertura da Conferência, os ativistas se levantaram em peso com cartazes e faixas de protesto enquanto entoavam corinhos como "Ô Dilma, presta atenção, não se governa com religião", ou "A Dilma pisou na bola, homofobia continua na escola".

Sem contar os coros entusiasmados de "Lula! Lula!" em referência à presença do ex-presidente na abertura da 1ª Conferência, em 2009. Nessa, o governo federal se fez representar pelos ministros Gilberto Carvalho, da Secretaria da Presidência da República, Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, e Luiza Bairros, da Igualdade Racial.

Além da presidenta Dilma, a senadora Marta Suplicy foi outra ausência notada na abertura do evento. A relação entre a senadora e os LGBT ficou estremecida recentemente quando o movimento se opôs às concessões incluídas no seu parecer ao PLC 122 na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Pelo Legislativo, falou o deputado federal gay Jean Wyllys, ovacionado pelos presentes, elegante e brilhante: "O movimento é suprapartidário, está acima de governos por um interesse comum".

Os holofotes, entretanto, brilharam com mais intensidade nos representantes do Poder Judiciário, responsável pelos maiores ganhos dos homossexuais nos últimos anos. O ministro do Superior Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, relator do parecer que levou ao reconhecimento das uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, proferiu uma emocionante e poética palestra magna na 2ª Conferência, onde ressaltou a importância de se reconhecer a diversidade, as características e gostos individuais, reforçando o dever do Estado em garantir os direitos de qualquer cidadão brasileiro, independente de como realiza sua felicidade.

Camisinha sempre!

sábado, 10 de dezembro de 2011

PLC 122 - 10/12/2011



O Projeto de Lei Complementar (PLC) 122 completou dez anos em agosto de 2011. Foi apresentado originalmente pela ex-deputada Iara Bernardi (PT-SP) e se propôs a tornar crime as práticas homofóbicas, entendidas aqui como a discriminação aos homossexuais. Basicamente, o projeto altera a Lei 7.716 e inclui a homofobia, assim como outros tipos de preconceito, nas mesmas condições do racismo.

O PLC 122 incomodou os evangélicos, aqueles que mais condenam e incitam a violência contra as práticas homossexuais e que se espumam em ofensas aos gays nos parlatórios de câmaras, assembleias e pelos canais de TV por todo o Brasil. Caso o PLC 122 fosse aprovado, eles corriam o risco de serem criminalizados pelos seus discursos de efeito. Sem seu discurso preferencial, teriam que mudar sua estratégia e apontar seus canhões para outros inimigos que não os gays, capazes de materializar conceitos primários como amigo e inimigo, bem e mal, pecado e virtude, céu e inferno.

Depois de passar por dezenas de modificações, recentemente a senadora Marta Suplicy (PT-SP) e uma ala da ABGLT fizeram seu diagnóstico da situação e concluíram que sem uma negociação não seria possível avançar. Assim, reuniram-se com os representantes dos evangélicos e chegaram a um acordo sobre uma nova redação. E foi aí que o caldo desandou.

O parecer da senadora Marta Suplicy na Comissão de Direitos Humanos propunha modificações importantes, entre elas a ressalva de que a lei não se aplicaria nos casos de "manifestação pacífica de pensamento decorrente da fé e da moral fundada na liberdade de consciência, de crença e de religião de que trata o inciso VI do art. 5º da Constituição Federal". Com isso, as pregações ofensivas aos homossexuais tão comuns nos templos evangélicos não seriam punidas, e toda a legitimidade que o discurso dos pastores dá aos crimes homofóbicos estaria isenta. Além disso, propunha penas mais brandas para a homofobia que o crime de racismo, o que hierarquiza preconceitos a partir de critérios bastante discutíveis e pouco claros.

O movimento LGBT se dividiu, assim como os parlamentares que nos apoiam. O deputado gay Jean Wyllys e Marta Suplicy não se entenderam e trocaram farpas. A ala do movimento ligada ao PT saiu em defesa do acordo com os evangélicos; as outras recusavam uma lei que não fosse completa. No último instante, a senadora propôs que seu parecer fosse reexaminado, e a sessão foi suspensa entre inflamadas discussões entre gays e evangélicos. Inacreditável quando pensamos que estamos no Senado Federal, no século XXI.

Camisinha sempre!

sábado, 26 de novembro de 2011

Segurança - 26/10/2011





Direitos Humanos, Justiça e Segurança Pública se uniram para propor um acordo de cooperaçao com os estados brasileiros para o combate à homofobia. Com a presença do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário e representantes das secretarias de segurança de Alagoas, Amazonas, Espírito Santo, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Sergipe, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Pará, o acordo foi assinado na terça-feira, dia 22. Nao estiveram presentes na cerimonia de assinatura do acordo, importantes centros onde a violência homofóbica se manifesta, como Minas Gerais, Sao Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e a Bahia, há seis anos o estado onde mais se mata homossexuais no Brasil.


O documento pactuado prevê açoes de capacitaçao de policiais para lidar sem preconceitos com as ocorrências que envolvem crimes de ódio. A Secretária Maria do Rosário reconhece como um dos principais desafios a serem enfrentados, o combate à homofobia institucional, aquela que dificulta o acolhimento de gays, lésbicas, travestis e transexuais nos serviços públicos, como saúde, educaçao, segurança pública e justiça.


A temática LGBT deverá fazer parte dos cursos de formaçao inicial e continuada dos policiais, como forma de esclarecê-los e evitar que ajam com base em conceitos generalistas e pré-concebidos e respeitem os cidadaos a quem devem proteger, mesmo que suas idéias e visao de mundo sejam discordantes.


O acordo se propoe a implantar uma das mais simples e importantes idéias para a geraçao de estatísticas oficiais sobre crimes homofóbicos no Brasil que é a inclusao de campos específicos sobre o tema nos boletins de ocorrencia policial. Isso possibilitará uma apuraçao precisa e oficial sobre o assunto.


Até o momento, os números que nos colocam na triste liderança mundial de crimes homofóbicos sao apurados pela sociedade civil, mais precisamente pelo Grupo Gay da Bahia. A inclusao da homofobia nos boletins de ocorrência, nos dará uma dimensao oficial e ampliada da violencia homofóbica e nao somente os extremos. 160 homossexuais já foram assassinados no Brasil em 2011, o que nos faz perder um cidadao homossexual brasilerio a cada 36 horas!

sábado, 19 de novembro de 2011

Benetton - 19/11/2011



A ideia de se colocar no ar uma campanha que exibisse os grandes líderes mundiais trocando afeto com seus inimigos era pequena para as pretensões da Benetton. Uma mensagem que levantasse a hipótese de uma conciliação entre os maiores adversários políticos e religiosos do planeta certamente angariaria a simpatia da população. A possibilidade de se utilizar efeitos especiais para colocar lado a lado, afetuosamente, os grandes inimigos da nossa era poderia chamar a atenção para a estratégia da marca, além de fomentar a tolerância. Mas, isso ainda era pouco.

Na tarde de quarta-feira, Alessandro Benetton, vice-presidente do grupo, apresentava ao mundo, diretamente da Boulevard Hausmann Paris a campanha "Unhate" (não odeie) que estará orientando suas ações de marketing: a cultura do ódio não é inevitável; o mundo pode ser diferente.

Roma, Paris, Nova York, Tel Aviv e Milão foram palco de uma série de "ações de guerrilha" onde as polêmicas fotos ocuparam, uma após outra, as vitrines das lojas e o próprio espaço urbano. Mesmo assim, para a Benetton e o fotógrafo Oliviero Toscani - o mesmo que já provocara frisson nos anos 90 com a foto de uma sedutora freira aos beijos com um padre - era preciso mais que derrubar as barreiras entre os maiores adversários do mundo: era preciso que Barack Obama, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel, Benedictus XVI e outros não menos importantes aparecessem beijando a boca de seus desafetos, o que joga pimenta no que poderia ser uma mera mensagem pacifista romântica.

Em poucos minutos as fotos tomaram o mundo. Assustado, o Vaticano reagiu e exigiu que o beijo entre o Papa Bento XVI e o imã sunita Ahmed Mohamed el-Tayeb fosse retirado do ar sob o argumento de que as imagens eram "ofensivas não apenas para a dignidade do papa e da Igreja Católica, mas também para a sensibilidade dos fiéis".

A Benetton arriscou. Sua campanha poderia ser suspensa horas após o lançamento e ela devia estar preparada para acatar as tentativas de impedir sua veiculação. Entretanto, instantaneamente as imagens deixaram de obedecer a um simples plano de mídia e sua distribuição passou ao comando de milhões de internautas conectados. O beijo homoafetivo entre Bento XVI e Ahmed El-Tayeb, ou entre Obama e Hugo Chaves ou mesmo o beijo heterossexual entre o presidente francês Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, não pertenciam mais à empresa.

Quando a Benetton temperou sua campanha de combate à cultura do ódio com o beijo gay, ela sabia que bastariam alguns minutos para que sua iniciativa deixasse de ser só sua e fosse assumida por todos. E isso definitivamente não foi pequeno.

sábado, 12 de novembro de 2011

Boa noite - 12/11/2011


No último sábado, meus leitores habituais releram uma coluna que fora originalmente publicada em dezembro de 2010. Essa foi a solução encontrada pelos editores do Magazine GLS, uma vez que, até o fim da sexta-feira, minha coluna inédita do dia seguinte não havia chegado à redação. Sem respostas às tentativas de me alcançar, reprisaram um dos meus escritos, aliás, bem a propósito.

Os colegas não sabiam que, desde quinta-feira à noite, eu estava desacordado em meu apartamento em Brasília, sob efeito de soníferos, vítima de um manjado golpe conhecido como "Boa Noite, Cinderela". Fui socorrido por parentes no sábado e somente na segunda-feira pude fazer um balanço dos prejuízos causados pelo bandido.

Era uma quinta-feira rotineira e eu terminaria o meu dia mergulhado nas ondas da internet até o sono chegar. O contato chegou por volta das 18h, via mensagem no celular e me pareceu uma excelente ideia para quebrar a mesmice. Assim, aceitei o convite de um pretenso novo amigo para um chop no fim da tarde.

Foram duas ou três cervejas até que tudo se apagasse. Até aí o assunto girou em torno de trabalho, carreira, viagens e só voltei a perceber o que acontecia ao meu redor no sábado. Não sei como cheguei em casa, não sei o que disse, os comandos que recebi ou as informações que forneci. Os prejuízos materiais poderiam ter sido maiores; as conseqüências para a minha vida, ainda mais.

No domingo à tarde, publiquei um resumo do ocorrido na internet e deu-se início a uma emocionante enxurrada de manifestações de solidariedade e préstimos diante do incidente. Alguns, entretanto, foram críticos e consideraram que me expus demais ao denunciar minha própria fragilidade.

Ao resumir essa história e torná-la pública, quero convidá-los a refletir sobre nossas vulnerabilidades. A novidade que me atraiu não deveria significar risco. Conhecer novas amizades não é por natureza um ato perigoso, mas pode tornar-se. A vida continua tensa e não dá para baixar a guarda, relaxar ou desviar o olhar do seu copo.

Encontros entre homens homossexuais continuam clandestinos e, mesmo que não tenha sido esse o caso, pairava no ambiente um pressuposto de impunidade. O bandido tinha todo um enredo engendrado e, sob o efeito de drogas, minhas reações seguiam suas previsões.

Amplificadas pela culpa, as dores da alma deprimem e o arrependimento dilacera. Afortunado, continuo vivo. Poderia não.

sábado, 29 de outubro de 2011

Casamento - 29/10/2011



Na terça-feira, dia 25 de outubro, o Supremo Tribunal de Justiça reconheceu o casamento civil de duas mulheres lésbicas gaúchas. Pode parecer que esse direito já havia sido conquistado em 5 de maio, quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo, mas a decisão desta semana avança, e muito, na garantia dos direitos LGBT.

São várias as diferenças entre união estável e casamento civil. A união estável é o reconhecimento legal de uma situação que já existe - um casal que vive junto há muitos anos e vai a um cartório para registrá-la. O casamento civil, ao contrário, oficializa uma família que passa a existir a partir daquele momento.

O reconhecimento da união estável, como previsto em lei, não é entendido como uma solução final e definitiva. O código civil orienta no sentido da conversão de uniões estáveis em casamentos. Assim, era de se esperar que, a partir do reconhecimento das uniões estáveis homoafetivas, o próximo passo fosse a busca da sua conversão em casamentos civis. E não deu outra.

Por todo o país, vários casais com uniões reconhecidas foram em frente na garantia de seus direitos, mobilizando advogados, ativistas e outros pares na busca da conversão para o casamento civil.

Apesar do ineditismo da decisão do STJ ao reconhecer o casamento das lésbicas gaúchas nesta semana, pelo menos dois outros casais de gays brasileiros já haviam oficializado seu matrimônio sem precisar chegar ao Supremo: Sérgio Kauffman e Luiz Moresi, em Jacareí, SP, que tiveram sua união estável convertida em junho; e Cláudio Nascimento e João Batista, no Rio de Janeiro, em agosto. Os dois casamentos foram autorizados e reconhecidos pelos tribunais estaduais, sem necessidade de se apelar ao Supremo.

Foi o grupo Somos, de Porto Alegre, RS, que acolheu e levou em frente a demanda das gaúchas, em 2009 - decidida agora. O grupo lembra que as corregedorias estaduais devem recomendar aos cartórios que acatem os pedidos de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo em seus Estados.

Mais uma vez, o Judiciário se antecipa ao Legislativo e protagoniza o avanço dos costumes no Brasil. Entretanto, só poderemos comemorar nossa vitória definitiva quando deputados e senadores perderem o medo e aprovarem a lei que garante o direito ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Proposta nesse sentido tramita na Câmara, apresentada pelo Deputado Federal gay Jean Willys (PSOL-RJ). Ela altera definitivamente nossa Constituição para equiparar em toda sua plenitude os direitos dos casais homo e heteroafetivos.

Camisinha sempre!

sábado, 22 de outubro de 2011

856 - 22/10/2011



De janeiro a setembro de 2011, o serviço telefônico Disque 100, que recebe denúncias de violação dos direitos humanos em todo o país, recebeu 856 denúncias que foram classificadas como homofóbicas: aquelas que se originam da aversão aos homossexuais. Dentre os Estados, Minas Gerais está em segundo lugar, responsável por 71 ligações. Só perde para São Paulo, com 134. São 2.432 violações aos direitos dos gays protagonizadas por quem não os reconhece como tal e defende o seu direito de violá-los: os homofóbicos.

Os homofóbicos são pessoas que se afirmam na negação dos direitos e no extermínio de todos que não sejam heterossexuais. Em geral, fazem o tipo moralista, de estopim curto, e se irritam facilmente com qualquer gay que se aproxime, seja num restaurante, no elevador ou na avenida Paulista. Negam veementemente que tenham medo de gays, mas nos veem como uma ameaça a ser temida. Consideram-nos frágeis e delicados, mas temem nossa força, nossos poderes, nossa capacidade de sedução, nossos conceitos de felicidade, individualidade e liberdade. Os homofóbicos temem a si mesmos e a nós, que levantamos poeiras e despertamos neles desejos e fantasias que temem enfrentar. O homofóbico é um falso valentão que tem medo dos gays.

Por trás das 856 denúncias de homofobia que chegaram ao Disque 100 existem histórias de tortura física e psicológica, cárcere privado, espancamentos, discriminação na escola por parte de colegas, professores e funcionários; nas igrejas e templos, por fiéis e sacerdotes; pelos colegas de trabalho e chefes; e, principalmente, na família, o núcleo que deveria acolhê-lo e orientá-lo para o respeito às diferenças.

Sem apoio, fragilizados pela violação de seus direitos, resta-lhes um número de telefone gratuito, uma voz que diz alô e se dispõe a acolhê-los. Ao recorrer a um diálogo impessoal na esperança de verem seus sofrimentos contidos e seus direitos resgatados, as 856 vítimas da homofobia revelam o grau de solidão e desamparo em que se encontravam. Sem ninguém em quem confiar, sem apoio, sem acesso, assustados, machucados, 856 brasileiros discaram 100 e pediram socorro.

A ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, responsável pelo serviço, se mostrou sensibilizada. Durante encontro com representantes de secretarias de segurança pública de dez Estados, reunidos a seu convite em Brasília na última segunda-feira, ela propôs um termo de cooperação para o enfrentamento da homofobia.

Prevenção à violência homofóbica se faz com ferramentas que promovem mudança de comportamento: educação, informação e exemplo. Está na hora de usá-las.

Camisinha sempre!

domingo, 16 de outubro de 2011

Conferências - 15/10/2011


Desde ontem, 450 ativistas e gestores municipais e estaduais das diversas áreas do governo se encontram reunidos no SESC - Venda Nova para a II Conferência LGBT de MG. Entre os 853 municípios mineiros, dez realizaram conferências municipais ou regionais e enviaram seus delegados. Outros vinte estão representados por grupos de ativistas que solicitaram sua participação e os demais são da capital ou cidades do entorno.

A participação dos LGBT do interior foi prejudicada pelo corte dos recursos disponibilizados pelo estado para a realização do evento. Com 30% menos dinheiro que em 2008, o interior ficou de fora da construção da conferência mineira e aqueles que conseguiram chegar ontem a BH o fizeram graças ao esforço hercúleo de suas lideranças.

A participação da população na gestão pública se dá através das centenas de conselhos onde a sociedade civil tem assento ou através das conferências convocadas pelo governo, espaço onde os movimentos sociais podem se manifestar, negociar e pactuar acordos que atendam às suas necessidades. Assim, temos os conselhos e as conferências de saúde, da mulher, da juventude e dezenas de outros, entre eles aqueles que tratam das questões voltadas para os homossexuais.

As conferências acontecem de tempos em tempos e se organizam em cascata, das municipais à grande conferência nacional onde os delegados eleitos em cada etapa apresentam suas propostas e moções em grupos temáticos. Ao final aprovam um documento que define ações, prazos e responsabilidades.

A primeira Conferência Nacional GLBT aconteceu em julho de 2008. Além de inverter oficialmente a ordem das letras na sigla do movimento - de GLBT para LGBT - o evento gerou o “Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT”, que elenca 166 ações a serem executadas pelo poder público, das quais, hoje, metade não foi realizada, ou foi parcialmente.

A primeira Conferência LGBT alçou o Brasil ao posto de único país do mundo a realizar um evento do gênero e adorna discursos e relatórios sobre a situação dos direitos humanos em nosso país. Em maio desse ano, a Presidência da República convocou a segunda conferência para dezembro de 2011 e deu início às mobilizações municipais e estaduais.

Por aqui, a conferência de 2011 mobilizou bem menos que a primeira. Reflexo da dificuldade de interlocução entre o estado e o movimento LGBT, as propostas de 2008 amarelam nas gavetas do poder. Alguns estados levaram as conferências a sério e foram implacáveis na busca de resultados. Outros, nem conseguiram começar.

Camisinha sempre!

sábado, 8 de outubro de 2011

Estatuto - 08/10/2011




Nessa semana, a Deputada Manuela D´ávila (PCdoB-RS) liderou a aprovação do Estatuto da Juventude, não sem antes enfrentar o ti-ti-ti conservador da bancada evangélica da Câmara, que fez suas tradicionais objeções a tudo o que diz respeito à orientação sexual. Só para variar.

O Estatuto da Juventude regulamenta a garantia dos direitos dos cidadãos entre 15 e 29 anos. As proposições são simples e óbvias, mas reconhecem os jovens como cidadãos autônomos, com demandas e necessidades específicas. Família, comunidade, sociedade e Poder Público são obrigados a assegurar aos jovens a efetivação de seus direitos básicos.

Em sua versão original, o Estatuto procurava assegurar que os jovens não fossem discriminados por sua orientação sexual ou por mais de uma dezena de motivos tais como raça, etnia, opiniões, aptidões físicas ou recursos econômicos.

Entretanto, foi preciso negociar com os evangélicos e a caneta do Deputado Joao Campos (PSDB-GO), líder evangélico e arquiinimigo do movimento gay, agiu rapidamente para encontrar e retirar as referências ao respeito à livre orientação sexual no documento. Excluída a possibilidade explícita de uma ação educativa de combate à homofobia nas escolas, o acordo foi selado.

Pode parecer um pequeno detalhe, mas, mais uma vez, tira-se da legislação a clareza necessária e entrega-se à interpretaçao dos juristas o reconhecimento da homofobia como uma forma de discriminação. Os evangélicos, por exemplo, insistem em não reconhecê-la.

Os avanços reforçam a heteronormatividade. Os conteúdos curriculares dos diversos níveis de ensino devem incluir, entre outros assuntos negligenciados, o consumo de álcool e drogas, o planejamento familiar e a saúde reprodutiva. O Estatuto reconhece que o direito à sexualidade deve contemplar o respeito à diversidade de valores, crenças e comportamentos, mas não às outras orientações sexuais.

O estatuto ainda vai ao Senado e pode encontrar obstáculos mais restritivos aos direitos dos gays. Porém, apesar de não ser ainda o tão almejado estatuto da população LGBT, avança na garantia dos direitos dos jovens gays no bojo da juventude como um todo.

Camisinha sempre!

sábado, 1 de outubro de 2011

Jovens gays - 01/10/2011


Em 1990, cerca de 30% dos jovens de 15 a 24 anos doentes de Aids tinham se infectado em relações homossexuais. Em 2009, esse percentual já ultrapassava os 54%! Desde 1990, foram cerca de dez mil casos de Aids entre esses jovens gays. Um problema sério, que extrapola o âmbito da saúde e envolve toda uma rede que inclui o núcleo familiar, a escola e demais serviços públicos.

A dificuldade da abordagem da vulnerabilidade e exposição ao risco dos jovens gays se constitui hoje num dos mais sérios desafios para o enfrentamento da epidemia da Aids no mundo.

O impasse começa na abordagem do tema. Conversar e obter informações sobre homossexualidade em um espaço seguro e desprovido de preconceitos ainda é tarefa árdua. As ações nesse sentido não se convertem em políticas públicas e muitas vezes constituem-se iniciativas isoladas de alguns abnegados gestores ou raros pais compreensivos que abrem o diálogo, orientam e acompanham o desenvolvimento sexual de seus filhos gays.

Se para os adolescentes em geral a dificuldade de espaços de debates e acesso à informações sobre sexualidade como um todo já é um problema, quiçá para se tratar das homossexualidades.

A discussão sobre o direito dos jovens à informação e autonomia sobre suas práticas afetivo-sexuais ainda não conseguiu se livrar de conceitos morais limitadores que dificultam seu processo de tomada de decisão, expondo-os a relações sexuais de risco. Some-se a isso a dificuldade de acolhimento nos serviços públicos e de acesso aos insumos de prevenção, como a camisinha.

É preciso que os progressistas se manifestem. Ao contrário do que alardeiam os conservadores, nem todos os pais e professores são contrários, por exemplo, à distribuição de camisinhas nas escolas, através das máquinas dispensadoras que, de certa forma, manteriam a privacidade dos hábitos sexuais de alunos e alunas. Nem todos são contra as ações de combate à homofobia nas escolas e muitos concordam com a necessidade de se capacitar e instrumentalizar os professores para que saibam como abordar o tema.

É fundamental entendermos que a abordagem dessa questão entre os jovens gays é urgente. São quase 500 novos casos de Aids por ano. A cada dia que evitamos o assunto, pelo menos um jovem gay adoece de Aids no Brasil. E o assunto continua fora da pauta.

Camisinha sempre!

sábado, 24 de setembro de 2011

Novelas - 24/09/2011


Áureo, personagem gay caricato e pai incidental do filho da amiga Celeste, 
em Morde & Assopra, novela da Rede Globo

As novelas da TV nos provocam. Autores, diretores, atores e produtores sempre abordam a homossexualidade e tanto despejam seus preconceitos e equívocos pessoais como prestam um enorme serviço ao debate sobre a convivência pacífica com a diversidade afetivo-sexual.

Muitos brasileiros e brasileiras já choraram diante da tela da TV ao ver um personagem gay se separar do seu grande amor ou se indignaram ao assistir as sempre densas cenas de discriminação contra os homossexuais. Mas essas mesmas pessoas sentiram aversão ou vergonha diante de personagens caricatos, abordagens pejorativas, análises rasas e estereotipadas que em nada contribuem para a melhoria da imagem dos gays e o combate à homofobia.

Os gays das novelas, aliás, têm transitado por todas as vertentes. Quem não se lembra daquele casal gay asséptico, no qual os dois mal se tocavam e pareciam mais amigos que amantes, numa clara apologia ao controle do comportamento dos gays com base em padrões heterossexuais?

Conheço muitos gays que sentem prazer em alimentar a dúvida se são apenas amigos ou mais que isso. São homossexuais que carregam o preconceito contra si mesmos e se envergonham de serem reconhecidos como gays. São os mesmos que não manifestam afeto com seus parceiros e consideram que beijá-lo pode agredir os outros. Como se nosso afeto fosse uma arma.

As novelas já nos mostraram casais gays inter-raciais, inter-geracionais, trogloditas com afeminados, patrões e empregados, rurais e urbanos. E tivemos belíssimas histórias de amor entre lésbicas que, da mesma forma, provocaram reações que variaram entre a simpatia e a torcida positiva, à mobilização popular para pressionar o redirecionamento da história, mesmo que fosse preciso matá-las.

Invariavelmente, nossos folhetins abordam a possibilidade de reversão da homossexualidade. Sempre existe uma mãe que quer arrumar uma mulher para "corrigir" o filho, ou uma amiga legal que se apaixona inesperadamente pelo amigo gay ou relações heterossexuais improváveis como resultado de bebedeiras ou alucinações. Por trás disso, uma mensagem subliminar da possibilidade do seu filho gay, ou sua filha lésbica, deixarem de sê-lo e se renderem à heteronormatividade.

Camisinha sempre!

sábado, 17 de setembro de 2011

Mitos - 17/09/2011


Alguns odeiam, outros evitam; alguns se manifestam, outros se calam; alguns atacam, outros toleram. Os homens heterossexuais, muito mais que as mulheres, têm dificuldade em conviver com os gays e, mesmo submetidos aos avanços inexoráveis dos costumes, com ou sem o crivo oficial, não sabem como agir diante do diferente.

 Alguns mitos, construídos em épocas de machismo mais exacerbado, ainda perduram nos chips cerebrais de certos cidadãos. O primeiro deles é que os gays estão sempre prontos, preparados e procurando uma oportunidade de transar. A partir disso, concluem que qualquer gay que se aproxime deles está à procura de sexo, independente de seus atributos de sedução. Assim, qualquer contato, físico ou não, um olhar ou um esbarrão no ônibus, é interpretado como uma tentativa de sedução. E daí a uma reação violenta, o caminho é curto.

 Outro mito é que não se deve tratá-los bem: isso pode ser mal interpretado pelas outras pessoas e pelos próprios gays. Ainda persiste a ideia equivocada de que um homem que se comporta com cordialidade no convívio com um homossexual desperta seus desejos sexuais e cria uma intimidade que fatalmente será mal interpretada. Ou, pior, os outros podem confundi-lo com um gay, pois, nessa lógica, somente tratamos bem os nossos iguais. Logo, se você é simpático com um homossexual, é grande a probabilidade de ser um deles. Assim, é preferível tratá-lo mal ou evitá-lo.

 Enfim, são inúmeros os mitos criados em nossa sociedade que dificultam o convívio dos homens heterossexuais com os gays. Isso revela uma falha na formação de nossos rapazes e, consequentemente, um elevado grau de insegurança de alguns homens em relação à sua identidade como macho. Mais que isso, expõe o seu temor diante de qualquer coisa que possa diminuir sua masculinidade, como acreditam que o fato de ser gay o faça.

 Há alguns anos, trabalho no mesmo espaço que outras centenas de pessoas, de todos os tipos: homens, mulheres, brancos e negros, jovens e velhos, gays ou não. Apesar desse contato diário, alguns colegas evitam até mesmo uma troca de olhares nos corredores, quiçá um cumprimento. A tal ponto de preferirem adiar o uso da toalete coletiva quando percebem que tem um gay ali.

 Eu os aconselho a relaxarem. Nem todos os homens são desejáveis e nem todos os gays os desejam. Nem todo lugar é erótico e nem toda hora é hora. E, se você acha que um cumprimento simpático é sinônimo de um convite sedutor, você precisa rever os seus valores.

 Camisinha sempre!

sábado, 10 de setembro de 2011

Quem mandou? - 10/09/2011




Mais um horror. Dessa vez, degolada. Não passa um só dia sem que cheguem notícias de um assassinato, uma agressão, um confronto provocado pela homofobia, pela aversão aos homossexuais. Cruéis, escandalosos, violentos, mas acima de tudo, tristes.

Não consigo acreditar em uma sociedade que aceite a violência homofóbica como intrínseca à sua cultura e não reaja. Não posso aceitar impassível a culpabilização das vítimas homossexuais e ver essa lógica se reproduzindo nos processos de educação, nas famílias, nas escolas, nas ruas. No dia a dia, os jovens introjetam uma noção de justiça que passa a considerar a morte como um castigo merecido, desde que atenda a determinadas condições.

A primeira delas é se você é uma pessoa "do bem" e merece solidariedade por ter morrido. Se você é "um rapaz tão bom, trabalhador, discreto!", todo mundo vai achar sua morte injusta. Discrição, aliás, sempre surge como um valor relacionado aos gays; tanto para o bem (os discretos) quanto para o mal (os indiscretos). Se você, ao contrário, não for um rapaz tão bom, seu trabalho não for entendido assim ou for indiscreto, então alguma coisa você deve ter feito para merecer a morte.

Outra condição é saber onde você estava. Sua morte será tão mais merecida quanto mais ermo e escuro for o lugar que você foi encontrado assassinado. A barbaridade da agressão que você sofreu é amenizada pelo ambiente que você frequenta, pelas ruas que passa, pelo horário que circula. Seu direito de ir e vir possui limites determinados por uma sociedade que pune com a morte os que não os seguem. "Quem mandou ficar dando mole naquele lugar, àquela hora?" Pronto. Morreu. Mereceu.

Você será avaliado pela opinião de pessoas que são vítimas da reprodução cíclica de uma cultura que impõe rígidos padrões de gênero e cobra caro por eles. Assim, todas as circunstâncias serão analisadas no sentido de legitimar a morte como um castigo pela sua orientação sexual: suas roupas, seus amigos, seus hábitos de consumo de drogas e substâncias, sua relação com a família, seus namorados, até seu cabelo, tudo no sentido de amenizar a responsabilidade dos homofóbicos. Também, quem mandou...?

Nada justifica a morte de alguém, muito menos sua orientação sexual ou identidade de gênero. Travestis, gays e lésbicas que transitam pela marginalidade o fazem em consequência de um contexto econômico e social que não lhes oferece alternativa. Ao condená-los por seu comportamento em vida, justificamos sua morte e aliviamos a responsabilidade dos verdadeiros culpados.

Camisinha sempre!

sábado, 3 de setembro de 2011

Tim Cook - 03/09/2011



O engenheiro gay Timothy D. Cook, 50, é o novo CEO (chief executive officer) da Apple Inc. Cook assume a árdua tarefa de substituir a genialidade de Steve Jobs, o criador da Mac, dos ipod, iphone, ipad e de uma nova lógica na utilização de recursos de informática no planeta. Jobs se afasta por motivos de saúde.

Mas, sim, o novo presidente da Apple é abertamente gay. Reservado, de poucas falas, Tim Cook traz à tona a discussão sobre a importância ou não de se salientar sua homossexualidade entre as centenas de características pessoais que mereceram destaque em sua apresentação. A reboque, traz a discussão para todos que nos apresentamos como gays e consideramos essa informação fundamental para que o outro tenha uma compreensão correta de quem somos.

Em 2010, Tim Cook ocupou o primeiro lugar na "Out’s Gay Power List", em que a revista "Out" apresenta os gays mais poderosos do mundo. Ao assumir a Apple, Tim Cook desafia o machismo da iniciativa privada e desvincula definitivamente o comportamento sexual de competência profissional e talento.

Não é quem você ama ou com quem você dorme que definem sua capacidade de interpretar o mundo em equações matemáticas ou suas habilidades como executivo de uma grande empresa. Assim como não definem capacidade de liderança, valentia, dedicação, honestidade e caráter.

Ao evitar destacar a homossexualidade de Cook entre as características do novo presidente da Apple, a imprensa comete uma enorme injustiça com todos os gays, pois nunca se preocupou em preservar essa informação quando fomos estampados nas páginas policiais.

Quando o trabalho e a competência de Tim Cook conseguem convencer os acionistas da Apple que ele é, entre todos, o mais confiável e indicado para dirigir a gigante norte-americana da tecnologia digital, fica patente o mérito e a inteligência do executivo, para além de sua orientação sexual. Mas, quando se desconsidera sua homossexualidade, fica de fora uma história de luta que exigiu de Cook muito mais que expertise técnica, uma enorme capacidade de superar as adversidades que o fato de ser gay carrega.

A Apple de Steve Jobs nunca foi muito ligada a programas sociais. Algumas ações isoladas no campo da educação que não evitaram que fosse acusada de dificultar a vida das organizações sem fins lucrativos ao taxar as doações recebidas através de plataformas desenvolvidas para seus iphones.

Espera-se que, com o advento da "era Cook", o gay mais poderoso do mundo tenha olhos para a promoção dos diretos dos gays e o combate à homofobia.

Camisinha sempre!

sábado, 27 de agosto de 2011

Vale, mas não pode - 27/08/2011


A educação formal oferecida na Casa do Recreio, uma pré-escola infantil de Belo Horizonte, era orientada para a autonomia dos sujeitos e para o respeito às suas diferenças. Dentre outras coisas, chamava atenção a negociação de regras com as crianças e a forma como eram estabelecidas e cobradas. Lá não se dizia "não pode" e sim "não vale", como nas regras de um jogo, onde não vale burlá-las. Uma forma interessante de desconstruir as relações de poder baseadas em diferenças geracionais ou hierárquicas. Fora dos muros da Casa do Recreio, entretanto, as relações sociais continuam a reforçar poderes e ditar regras a partir da imposição de pontos de vista pessoais a serem seguidas por todos: qualquer diferença não pode!

Ser gay vale, mas não pode! Apesar de não existir nenhuma lei nem norma social que nos proíba de sermos gays, ainda somos tido como "desobedientes". Alguns religiosos midiáticos têm reforçado um possível caráter autônomo da homossexualidade, insistindo na teoria de que existe um momento de decisão individual, de escolha pelo prazer homossexual, em contraponto ao argumento de que não optamos por isso. Nossa autonomia se limita a sairmos ou não do armário.

O rumo dessa prosa é mais perigoso do que parece. Ao convencer a opinião pública que a homossexualidade é resultado de uma escolha pessoal, os religiosos dão legitimidade a ações charlatãs de "cura dos gays". Em outras palavras, tornam aceitáveis seus métodos de controle e alteração de personalidades que invariavelmente resultam em fanáticos irracionais capazes de extremos em nome de Deus.

O que se pretende com isso é a condenação, o castigo aos gays pecadores. Se a homossexualidade é uma opção e os homossexuais a escolheram, logo poderiam ser convencidos a mudarem de ideia e optarem por outra coisa, como a vida heterossexual nos padrões recomendados por eles: sob a égide do pecado, da culpa, do arrependimento e do perdão. Ou pior: uma vida de abstinência sexual. Se não for assim, não pode!

Quando a opinião pública passa a ver no conservadorismo uma solução para os problemas advindos do avanço dos costumes e conquistas de direitos, automaticamente ela se insere numa estrutura religiosa paralela onde já existe uma hierarquia de poder e lideranças confortavelmente estabelecidas.

Ao negar nossa autonomia e nossos direitos sexuais, os conservadores abrem um precedente que lhes dá poderes para irem além da homossexualidade e apontam para interferências em outras particularidades da vida dos cidadãos. Homo ou heteros.


Camisinha sempre!

sábado, 13 de agosto de 2011

Juiz de Fora - 13/08/2011


Pelo menos 169 paradas e eventos alusivos ao orgulho LGBT serão realizadas no Brasil em 2011. A maior quantidade no Rio de Janeiro, onde acontecem 31 eventos. Segue o Pará, com 26, e Minas Gerais, que sedia 21 Paradas do Orgulho Gay. Ou 20, já que a Parada de Arcos, que deveria acontecer em 18 de junho, teve seu alvará revogado por pressão dos vereadores evangélicos junto ao prefeito da cidade.

A "temporada" mineira de paradas gays se estende por todo o segundo semestre e começou efetivamente com o estrondoso sucesso da Parada de Belô, no dia 24 de julho. No último domingo, tivemos a 7ª Parada Gay de Contagem, que reuniu cerca de 80 mil pessoas, e amanhã acontecem a 4ª Parada do Orgulho LGBT de Ituiutaba e a 10ª Parada de Betim. No próximo final de semana é a vez da 8ª Parada do Sul de Minas, em Alfenas.

A partir de segunda-feira, porém, as atenções se voltam para Juiz de Fora, que sedia, durante toda a semana, o 14º Rainbow Fest. O evento político-cultural se encerra com a 9ª Parada do Orgulho Gay, no sábado, 20 de agosto, que espera reunir 120 mil pessoas. Entre as atividades previstas na semana, estão a primeira Conferência Municipal LGBT, seguindo o chamamento do governo federal, e o primeiro Encontro Nacional de Gays (Engaids) nos dias 18 e 19 de agosto, cujo eixo central estará focado na Aids e nas vulnerabilidades amplificadas pela homofobia.

Juiz de Fora espera receber cerca de 10 mil turistas durante estes dias, o que promove uma injeção significativa de recursos na economia local e agita as caixas registradoras de comércio e serviços da cidade. São inúmeras atividades paralelas, como as festas de marcas (Stomp e Pulse), que acontecem nos clubes e salões e o Concurso Miss Brasil Gay, tradicional momento de luxo e transformismo, em sua 35ª edição no Ginário do Sport Clube.

Não satisfeito, o MGM (Movimento Gay de Minas), com o apoio fundamental da Prefeitura de Juiz de Fora, montou a Cidade Rainbow, uma gigantesca estrutura de palco, som e luzes, praça de alimentos e bebidas, onde estão programados shows de drag queens e música eletrônica, com apresentações de DJs nacionais e internacionais. Durante todas as atividades, serão distribuídos cerca de 50 mil preservativos, o que significa dizer que os gays que visitam a cidade entenderam a mensagem.

Camisinha sempre!


sábado, 6 de agosto de 2011

Orgulho hetero - 06/08/2011


Confesso que fui surpreendido pela mais recente novidade dos paulistanos: o Dia do Orgulho Heterossexual, pensado por um patético e equivocado vereador evangélico para se contrapor ao Dia do Orgulho Gay. A lei pode ainda ser sancionada ou não pelo prefeito Kassab, e espera-se que não.

Entretanto, ela já é o retrato da falta de informação daqueles que mataram as aulas de história e limitam-se a ver o mundo sob o ponto de vista rasteiro dos que se desobrigam a exercitar o raciocínio. As justificativas apresentadas pelo vereador para explicar sua proposta não possuem qualquer fundamento científico-jurídico-social e destilam todo o preconceito pessoal do vereador religioso contra os homossexuais, além de fazer apologia de suas crenças, impondo ao estado de São Paulo uma lei que faz chacota da inteligência de seus cidadãos.

O mundo não se divide em heteros e homossexuais. Muito menos funciona na lógica de contraposição dessas orientações sexuais. Homos e heteros não são inimigos que não podem ser convidados para a mesma festa. O Dia do Orgulho Gay não é uma ofensiva aos heterossexuais, muito menos aos religiosos. É o dia de se comemorar o fim do degredo nos armários e a consciência coletiva em torno do respeito às diferenças. Ao contrário da proposta do Dia do Orgulho Hetero, que se fundamenta na oposição às conquistas dos homossexuais e carrega a mesma essência de movimentos como a Marcha contra o PLC 122, ocorrida em junho, em Brasília, com o propósito de negar o reconhecimento da homofobia como um crime. Os religiosos temem que uma lei nesse sentido respingue em seus pastores, reconhecidamente incitadores da violência contra os gays em suas pregações. Se assim não fora, não haveria com o que se preocupar.

Para além do mérito da questão, ao aprovarem uma lei que se fundamenta em seus incômodos pessoais e na pirraça dos evangélicos contra os homossexuais, a atitude dos vereadores paulistas é o resultado do baixíssimo poder de discernimento de cidadãos que votaram em Clodovil, em Tiririca, em Carlos Apolinário e tantas outras irresponsabilidades. Com a aprovação do Dia do Orgulho Hetero, os vereadores paulistanos passam a ingressar o rol daqueles que não levam seu papel político a sério.

Camisinha sempre!

sábado, 30 de julho de 2011

De Belô - 30/07/2011


Na semana passada, Belo Horizonte foi o palco de mais um marco na luta pelos direitos dos homossexuais, com a 14ª Parada do Orgulho LGBT de Belô.

Reunidos em torno da luta contra a homofobia, cerca de 200 mil pessoas marcharam pela rua da Bahia e a avenida Afonso Pena, com palavras de ordem, discursos políticos engajados e um sentido militante que tornaram ainda mais belo o horizonte da capital mineira.

Nas palavras dos muitos "ratos de paradas gays" presentes, um evento no qual a batida surda das músicas eletrônicas e sua euforia contagiante não conseguiram ofuscar o propósito maior estampado no slogan Chega de Mortes e Violência. Por um País Sem Homofobia!

Mas, afinal, o que faz uma boa parada gay? Sem dúvida nenhuma, as pessoas. É sempre bom rever os antigos e descobrir novos amigos; admirar os figurinos e a variedade de escolhas para manifestar o orgulho gay naquele dia de visibilidade plena.

Para muitos, as paradas são como rituais de saída do armário, os primeiros momentos de naturalidade e liberdade. A alegria que cerca as paradas gays não é gratuita.

Além de ver gente, quem vai à parada quer sentir um clima de luta, quer exigir seus direitos, quer gritar e ouvir palavras de ordem que traduzam sua indignação diante da homofobia, da negação de seus direitos fundamentais e do desrespeito, que ainda nos machucam tanto.

Quem vai à parada quer ouvir seus líderes e seus ídolos, quer ver o mundo gay sob a luz do dia, quer mostrar seu namorado, demonstrar seu afeto e cobrar o reconhecimento de seu amor.

Uma boa parada tem música boa, porque ela é elemento fundamental de qualquer comemoração. Uma música nossa, aquela que toca nos ambientes que frequentamos e que nos faz dançar e sorrir.

A Parada de Belô de 2011 teve tudo isso. Foi brilhantemente organizada mais uma vez pelos grupos LGBT de Belo Horizonte tendo à frente o Cellos-MG.

Contou com a presença dos grupos do interior e, segundo Carlos Bem, presidente do MGRV de São João del Rei, "a parada de Belo Horizonte tem papel central e valor simbólico para a população LGBT do interior". "É a parada da capital mineira que dá a visibilidade estadual para nossas lutas e fortalece nosso coletivo em MG", completa.

Belo Horizonte conseguiu construir, mais uma vez, uma parada política, bonita, alegre e positiva. Que sirva de exemplo para todo o país.

Camisinha sempre!

Foto: "Hoje em Dia"

sábado, 23 de julho de 2011

Pai e filho - 23/07/2011



Outro dia, fui alcançado por um comercial de TV em que o jogador Neymar passeia por uma praia paradisíaca e faz uma declaração de amor e reconhecimento a um outro homem: seu pai. A direção e o texto do anúncio são primorosos. O jogador aparenta naturalidade, e a troca de afeto entre os dois expõe a perpetuação de uma intimidade física que remonta à infância e que permanece entre os dois adultos. Pai e filho. Amigos.

Alguns dias depois, fui atingido por outra cena, desta vez, jornalística. Dois homens vítimas de agressões homofóbicas. Em São João da Boa Vista, a 225 km de São Paulo, durante uma exposição agropecuária, pai e filho foram barbaramente agredidos por sete trogloditas que não entenderam as manifestações de afeto entre os dois. Os marmanjos julgaram que fosse um casal gay pelo fato de andarem abraçados. Ambos ficaram com o corpo repleto de escoriações, e o pai, que preferiu o anonimato e apareceu somente em silhueta na reportagem, teve parte da orelha decepada por uma mordida.

As duas situações envolvem afeto entre homens adultos, no caso, pai e filho. Ambos estavam felizes, compartilhando um momento de carinho com seu camarada. No comercial, foi possível explicar o significado daquela ternura; na vida real, não. Na praia, um pai orgulhoso ao lado do filho; no jornal, um pai ferido que prefere se esconder.

Os dublês de religiosos e políticos dizem que não precisamos de uma lei que criminalize a homofobia, que queremos privilégios. Muitas vezes, ouvimos aqueles que nos condenam repetirem que a lei que torna crime o preconceito contra os gays deve ter um texto mais suave. Pastores, padres, deputados e senadores negociam concessões que inocentem os religiosos midiáticos que, em nome de seu credo, incitam a violência contra os homossexuais. Contra os homossexuais? Bem, foi preciso que um pai carinhoso perdesse uma orelha para que a população entenda que a intolerância homofóbica não atinge somente os gays.

Uma sociedade que admite o preconceito contra os homossexuais como parte de sua cultura e se cala diante de agressões como essa está arriscada à naturalização dos confrontos e ao seu próprio fim.

Não é quando o amor entre dois homens se manifesta que a família é colocada em risco. A família corre perigo quando o afeto entre pai e filho se torna motivo para uma agressão. Mesmo que por engano.

Camisinha sempre!



sábado, 16 de julho de 2011

Estudantes - 16/07/2011




Em Goiânia, no 52º Congresso Nacional da UNE. Cerca de 5.000 estudantes, a grande maioria universitários, estão envolvidos em quatro dias de atividades que irão culminar na eleição da nova diretoria da histórica instituição, tradicional fábrica de líderes políticos e porta de entrada para a trajetória de alguns dos grandes nomes do Congresso Nacional.

Paralelo a discussões, oficinas, arranjos, equilíbrio de tendências e articulações, um significativo aparato de tendas e barracas estão montadas no local, onde dividem espaço organizações políticas, órgãos governamentais e não-governamentais, vendedores de artesanatos, churrasquinhos e cervejas.

É a praça da pausa e, muitas vezes para alguns, a oportunidade de expor suas idéias, num evento onde todos esperam a oportunidade de falar e poucos têm acesso aos poucos microfones.

No estande do Ministério da Saúde, além da distribuição de cerca de 10 mil preservativos, folhetos informativos sobre DST e Aids e do trailer "Quero Fazer", onde os jovens podem se testar para o HIV, um microfone aberto convida ao debate sobre a importância do envolvimento da juventude universitária na promoção do respeito à diversidade e no combate à homofobia, um dos principais fatores de vulnerabilidade dos gays e outros homens que fazem sexo com homens, principalmente entre os jovens.

Ao acompanhar a atividade, a primeira conclusão a que se chega é que o assunto atrai os estudantes, a grande maioria com sentimentos de solidariedade e sonhos de um mundo melhor, sem preconceitos, mais justo e mais ético. Além disso, muitas dúvidas sobre prevenção e riscos apontam para a necessidade de se levar mais e melhores informações sobre Aids e DST aos estudantes.

Salta aos olhos o quanto o machismo ainda se encontra enraizado na mentalidade dos rapazes. Alguns não se intimidaram em expor pontos de vistas que se julgavam extintos, como colocar filhos homossexuais para fora de casa, castigos físicos e reação violenta à abordagem de um gay.

Mais lamentável ainda foi perceber o temor e a ansiedade da grande maioria dos jovens durante os 30 minutos que aguardavam o resultado dos testes do HIV. Resultado de muitas imprudências sexuais e dificuldades em adotar o uso regular e constante do preservativo.

Camisinha sempre!

sábado, 9 de julho de 2011

Eventos - 09/07/2011



Minas Gerais se prepara para sediar dois importantes eventos cujo foco principal será a Aids e os gays e HSH (homens que fazem sexo com homens). Ambos são organizados pela sociedade civil e foram aprovados pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde no recente edital de apoio a eventos nacionais e regionais sobre o tema.

De 4 a 7 de agosto, as atenções se voltam para São João del Rei, onde acontecerá o 1º Encontro Sudeste de Jovens Gays e HSH. A ideia do MGRV (Movimento Gay da Região das Vertentes) é discutir as políticas de prevenção focadas nesse segmento. Cerca de 50 jovens gays debaterão suas principais dificuldades no enfrentamento da Aids e os fatores que os tornam um dos segmentos em que a epidemia mais cresce.

"O poder público ignora a forma como os jovens veem o mundo e se comunicam. As ações de prevenção da Aids hoje não refletem nossa realidade e não conseguem sensibilizar os jovens gays para se cuidarem", declara Carlos Bem, presidente do MGRV e coordenador geral do evento.

Os debates se estenderão à defesa dos direitos humanos e à falta de políticas descentralizadas e efetivas de combate à homofobia.

"Poucas prefeituras estão comprometidas ou possuem planos municipais de enfrentamento da epidemia ou políticas de direitos humanos. Isso contribui muito para o crescimento da fragilidade dos jovens gays diante das DST e da Aids", completa.

Logo depois, de 17 a 19 de agosto, Juiz de Fora receberá o 1º ENGAIDS - Encontro Nacional de Gays e HSH. Com o tema Desafios para a Prevenção às DST - Aids - HIV, o evento espera atrair 150 participantes de todo o país.

"Os maiores especialistas no assunto estarão debatendo e propondo ações específicas para os homens que têm relações sexuais com outros homens, entendendo que a abordagem da prevenção e as características da epidemia são diferentes entre gays, lésbicas, pessoas trans e bissexuais. O foco do ENGAIDS está nos gays e bissexuais, nos quais os dados mostram uma maior concentração da epidemia", justifica Marco Trajano, presidente do MGM - Movimento Gay de Minas, ONG que está promovendo o evento.

Segundo Trajano, apesar dos esforços, as pesquisas mostram que a situação entre gays e HSH continua grave. "Ainda representamos 40% dos homens infectados pelo HIV. As pesquisas mostram que a prevalência do vírus entre gays e HSH atinge 10,5%, índice bastante significativo quando comparado aos 0,8% de infectados entre homens heterossexuais na mesma faixa etária", aponta. O ENGAIDS acontece paralelamente ao tradicional Rainbow Fest e conta com o apoio do programa de Aids da Prefeitura de Juiz de Fora.


Camisinha sempre!

sábado, 2 de julho de 2011

Inimigos - 02/07/2011

Deus arma seu povo para lutar contra os inimigos

Nós não estamos criando caso com ninguém. Estamos aqui, no nosso canto, amando os nossos amores, cavando espaços, sobrevivendo e defendendo o nosso direito de sermos cidadãos no mesmo patamar que os não homossexuais.

Não estamos tirando o direito de ninguém. Não estamos destruindo nada, não queimamos livros, não condenamos opções. Somos cidadãos como todos que vivem em cidades e usufruem dos serviços que elas nos oferecem. Queremos ser bem tratados, gentileza, solidariedade, empregos, como qualquer brasileiro. Estamos em todas as profissões, em todas as raças, em todas as famílias. Temos nossos momentos de alegrias e tristezas, temos talento para algumas coisas e carecemos disso para outras. Alguns de nós somos do bem; outros, nem tanto. Alguns estão livres; outros, presos. Alguns se sentem livres; outros, presos. Somos gente como todos, somos indivíduos como qualquer um.

Nunca fomos para portas de igrejas protestar contra seus ensinamentos homofóbicos. Escolhemos um fórum laico para nossas reivindicações: o fórum dos direitos, das leis, da Constituição.

Fomos escolhidos como inimigos prioritários de algumas religiões que se sentem ameaçadas pela nossa forma de amar e pelo objeto do nosso amor. Fomos conduzidos a uma guerra insana que nos coloca acorrentados num paiol de pólvora a cada dia mais explosivo.

As mensagens religiosas de condenação dos homossexuais têm atraído multidões em torno de bandeiras que visam não reivindicar direitos, mas retirar os nossos. O discurso homofóbico da deputada carioca cristã Miriam Rios, que circulou nesta semana pela internet, ou os gritos inflamados de pastores midiáticos contra os homossexuais têm criado um ambiente social efetivamente perigoso para nós. A forma como o assunto é abordado pelos religiosos em seus cultos e manifestações coloca em risco a nossa integridade física e em dúvida a caridade cristã.

Ninguém tem o direito de ir às ruas reivindicar o direito de manifestar preconceito, de discriminar. Nossa Constituição proíbe isso. É preciso revisitar os conceitos de democracia, civilidade, laicidade e respeito e controlar a violência que vem embutida no discurso dos que nos condenam como pecadores.

Camisinha sempre!

sábado, 25 de junho de 2011

Parada SP - 25/06/2011



Amanhã é o dia da maior parada gay do mundo. São Paulo ferve! Desde a véspera do feriado, centenas de caravanas de gays, lésbicas, travestis e bissexuais desembarcam na capital paulista dispostas a mostrarem a cara, conhecerem outras caras e encararem a maratona de atividades que vão desde as reuniões políticas às mais incríveis baladas, organizadas pelo trade GLS, que atravessam as noites.


Os gays estão em todos os cantos da cidade. A sensação é que os armários foram arrombados e que, finalmente, deixou de fazer sentido se esconder em aparências para agradar aos outros. Homossexuais de todas as nuances invadem o espaço público, lojas, shoppings, parques de diversões, bares e restaurantes, boates, hotéis e, em cada canto, o que se vê é um ensaio para o que seria - ou será um dia - um mundo em que a heteronormatividade não seja uma imposição e outras alternativas de conjugalidade sejam aceitas.


Essa é a mensagem que se lê nas entrelinhas de toda a movimentação provocada pela Parada LGBT. O clima de gentileza que paira sobre a cidade, de confraternização, a sensação orgulhosa do exercício de direitos conquistados e a evidência, por contraste, do quanto nos falta de reconhecimento de cidadania no nosso dia a dia. As pessoas transitam alegres, muitos sorrisos, brincadeiras, prazeres quase infantis de quem se sente livre para dar uma pinta, ser verdadeiro em seus gestos e afetos sem temer a reação violenta e cerceante da homofobia.


Apesar disso, o embate para o qual os homossexuais foram conduzidos como inimigos não acabou. Soldados da guerra santa neopentecostal encontram-se ali ao lado, à espreita, atentos aos nossos movimentos e aguardando o primeiro deslize, a primeira ocorrência, para lançarem suas injúrias e fortalecerem seus músculos nessa ridícula queda de braços.


Na quinta-feira, enquanto milhares de cidadãos se confraternizavam na Feira Cultural LGBT no Anhangabaú, milhões de religiosos marchavam pelas ruas da zona Norte paulistana apregoando sua adoração e defendendo, entre outras virtudes, a "tolerância". À frente do evento, os mesmos hipócritas que, há menos de um mês, estavam em Brasília chefiando a maior manifestação de intolerância e desrespeito aos cidadãos homossexuais dos últimos tempos: a marcha contra o PLC-122, projeto de lei que torna crime a homofobia.


Neste ano, o tema da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi tirado dos ensinamentos religiosos: "Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia!". Esperamos que essa lembrança leve as pessoas a refletirem sobre a insensatez que tem se tornado essa guerra.


Camisinha sempre!

sábado, 18 de junho de 2011

Faturas - 18/06/2011


A luta contra a homofobia está longe de ser uma causa unânime. Ainda enfrentamos a resistência de setores que consideram natural as manifestações discriminatórias contra os homossexuais e que acham que não merecemos proteção legal pela violência a que estamos sujeitos.

Existem setores que consideram a homofobia uma mera manifestação da violência urbana o que não exige nenhuma legislação especial.

Exatamente os setores que nos condenam e negam nossos direitos: os que defendem a extinção da homossexualidade e promovem a condenação dos homossexuais. Setores formados por pessoas que discriminam, julgam, condenam, legitimam e abençoam a violência homofóbica... Mas votam, consomem e opinam, o que reduz significativamente as possibilidades de apoio efetivo à nossa luta.

Assim, o poder público tem tido papel fundamental e solitário no financiamento de ações de promoção e defesa dos direitos dos gays. Não fossem os editais que financiam projetos voltados para o combate à homofobia, garantia de direitos e redução das vulnerabilidades dessa população, o movimento LGBT brasileiro não conseguiria executar seu trabalho. A pouca visibilidade positiva e a baixa capacidade de conversão da simpatia à causa gay em votos ou dinheiro não reduzem a nossa fragilidade e importância na construção da diversidade que caracteriza o povo brasileiro.

O apoio político, porém, tem seu preço. Além de bons relatórios e indicadores positivos, as moedas desse jogo muitas vezes incluem o silencio, a suavização de críticas e o controle de liderados. Ao misturar no mesmo saco as bandeiras da nossa causa e interesses partidários, o movimento LGBT arrisca perder o foco e até diminuir ou repudiar avanços protagonizados por partidos adversários.

Por outro lado, se consideramos a importância de ampliarmos nossa participação política, como estratégia de garantia de direitos, não temos como escapar dos partidos. Ninguém concorre ou se elege no Brasil sem filiação partidária.

Nossas bandeiras, portanto, precisam ser incorporadas, como tem sido por algumas siglas mais progressistas. É necessário um real investimento na formação política da população LGBT e na ampliação da nossa capacidade de converter mobilização em voto. É fundamental que os políticos que distribuem tapinhas nas nossas costas em épocas de eleição, honrem seus compromissos com a diversidade e com os fundamentos de seus partidos, assim como cobram fidelidade nas faturas que chegam ao movimento LGBT.

Camisinha sempre!

sábado, 11 de junho de 2011

Aids Summit - 11/06/2011



Nesta semana, a Aids voltou a ser o foco das atenções mundiais, marcando os 30 anos da epidemia. Desde quarta-feira, representantes das nações membros da ONU, especialistas, diplomatas e representantes da sociedade civil participam, em Nova York, da Reunião de Alto Nível sobre a Aids, o Aids Summit. Entre os objetivos do encontro, a desafiante meta de zero novas infecções pelo HIV até 2015, em consonância com as Metas do Milênio.

Paralelamente, o Fórum Global sobre Homens que Fazem Sexo com Homens (HSH) e HIV solicitou aos mais de trinta chefes de estados presentes e aos representantes dos países membros das Nações Unidas que reconsiderem as estratégias adotadas até hoje e que se baseiem em três pilares fundamentais na resposta à epidemia: políticas que sejam baseadas em evidências, foco em ações voltadas para populações chave e a defesa e garantia dos direitos humanos.

Intervenções específicas para alguns grupos são componentes indispensáveis para qualquer resposta nacional abrangente. "Em muitos estudos, as evidências têm chamado a atenção para populações- chave, como homossexuais, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis e pessoas trans", declara o dr. George Ayala, diretor executivo do Fórum HSH-HIV.

Gays e HSH compreendem cerca de 25% das pessoas vivendo com HIV na América Latina e no Caribe, por exemplo. No Brasil, enquanto a prevalência da Aids entre os homens heterossexuais é de 0,8%, chega a 10,5% entre os HSH. "Com mais de 33 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo e mais de dois milhões de novos infectados a cada ano, já não podemos nos dar ao luxo de ignorar as condutas baseadas em evidências em nome de normas culturais, valores religiosos ou códigos penais que violam os direitos humanos básicos", completa o dr. Ayala.

Contra essa abordagem, estão justamente os países que desrespeitam os direitos humanos e negam a diversidade sexual de sua população: muitos países africanos, árabes e caribenhos. Argumentam a defesa da soberania das nações e aquilo que vem sendo chamado de "relativismo cultural", que defende o respeito à cultura local, embora isso possa incluir mutilações, abusos e homofobia.

Além disso, os movimentos sociais defendem a produção de um documento com objetivos bem definidos e indicadores precisos que possam ser aferidos periodicamente, como o número de vidas salvas versus o valor investido. Contra isso estão os países desenvolvidos, financiadores de grande parte das ações de controle da Aids, que preferem um documento mais político e temem que metas e investimentos ambiciosos impliquem em um comprometimento maior de seus recursos.

Camisinha sempre!

sábado, 4 de junho de 2011

Debate - 04/06/2011



Os últimos acontecimentos alçaram o movimento LGBT aos mais elevados patamares do debate político nacional. O kit contra a homofobia, anunciado pelo MEC, execrado pelos religiosos e criticado pela presidenta, acabou como moeda preciosa nas negociações que pretenderam evitar a convocação do ministro Palocci ao Congresso para explicar o crescimento suspeito de suas finanças. Nossa foto nas primeiras páginas dos jornais, entretanto, mostra um movimento ferido, cujas cicatrizes ofuscam o brilho da vitória recente no Supremo Tribunal Federal, quando nossas uniões estáveis passaram a ser reconhecidas. Um debate bem mais qualificado do que os métodos adotados pelo Legislativo e o Executivo, diga-se de passagem, que se utilizaram das costumeiras ameaças, chantagens e barganhas.

A falta de controle das informações e de estratégias para a divulgação do kit contra a homofobia foi a grande responsável pelo desastre que se instalou em torno do assunto. O debate se espalhou como rastilho de pólvora sobre um material que ninguém viu, ninguém leu, ninguém conhece bem, a não ser os técnicos envolvidos em sua produção. Sequer aqueles que participaram dos debates do projeto Escola sem Homofobia, que deu origem ao material, viram o resultado final do kit. Na verdade, três vídeos curtos, indicados para serem utilizados nas oficinas como ferramentas provocadoras do debate sobre orientação sexual e identidade de gênero, foram postados no YouTube e serviram de estopim para toda essa celeuma. A partir de trechos selecionados, o que deveria servir para combater a homofobia serviu para reforçá-la, como uma volta às trevas onde se defendem valores conservadores e se apregoam falsas ameaças à família e à moral cristã.

É preciso reverter esse processo. É fundamental que o kit chegue aos órgãos sérios de imprensa e aos educadores completo, fundamentado e contextualizado para que seja analisado sem paixão, numa perspectiva de se melhorar o ambiente da educação formal em nossa sociedade e lapidar conceitos e virtudes que tornem nossos cidadãos melhores, não preconceituosos e homofóbicos.

Enquanto os religiosos que sequer participaram do processo de construção do material continuarem responsáveis pela divulgação dessa ferramenta criada para apoiar escolas e professores a lidarem com as questões que envolvem as homossexualidades nas escolas - uma deficiência amplamente detectada na formação de nossos docentes; enquanto o material não for conhecido e debatido sem suposições e conjecturas, continuaremos a tratar com preconceito aquilo que se propõe a combatê-lo.


Camisinha sempre!