quarta-feira, 22 de maio de 2013
Mais uma cama de gato no movimento gay?
No início de junho de 2012, o Departamento DST-aids-HV do Ministério da Saúde convocou jovens gays e especialistas para uma oficina de três dias onde produziriam uma campanha de prevenção dirigida aos jovens gays. Esse tipo de estratégia (oficinas e materiais produzidos por representantes do público alvo das campanhas) encontrou lugar no Departamento e já foi utilizado algumas vezes, já que, a um custo relativamente baixo e com o envolvimento das lideranças do segmento, chega-se a um resultado moderno e adequado para as novas mídias e redes sociais.
Cerca de 20 jovens gays estiveram em Recife e participaram das oficinas de vídeo, de grafite, de maquiagem, de DJ, amparados por especialistas em comunicação, vídeos, arte, aids, direitos, ativismo e colocaram a mão na massa para cumprirem um objetivo que se propunha a trabalhar poesia e intervenção urbana, redes sociais, universo drag queen e de produção de vinhetas.
Essa Oficina de Comunicação em Saúde para Jovens Gays gerou alguns produtos que até hoje encontram-se no “arquivo morto” do Departamento, temeroso de propor o seu lançamento e, mais uma vez, se indispor com o Ministro, com a SECOM e a Presidência da República, já que fala de sexo, direitos e homossexualidade.
O movimento gay - que encontra no Departamento de Aids seu único refúgio orçamentário num governo que foge desse assunto como o diabo da cruz – parece sentir-se satisfeito com a realização da oficina, como se assim a proposta tivesse concluída. Aliás, temos nos satisfeito com planos, projetos, conferências, seminários e oficinas que não saem do papel e nunca são colocados em prática. Há mais de 10 anos!
É desolador imaginar que as verbas empenhadas nessas oficinas e nas campanhas prontas e vetadas são jogadas fora, enquanto poderiam fazer muito mais diferença se aplicadas na ponta, no trabalho corpo a corpo com os jovens gays ou nas intervenções comportamentais que vêm fazendo diferença em outros países.
Onde está a campanha que foi trabalhada em Recife? Vai sair ou não vai? Ou estamos testemunhando mais uma cama de gato no movimento gay?
http://www.aids.gov.br/video/2012/52133
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Ruins de voto e ruins de grana - 08/10/2012
É hora de rever as estratégias políticas do nosso movimento. É o que mais se tem ouvido nos últimos dias,
repetindo pela enésima vez o discurso LGBT que sucede as eleições
brasileiras. O movimento LGBT perde eleição até para si mesmo.
São inúmeros os exemplos de derrotas sofridas por nós. Nas
eleições de 2000, ano de aprovação da Lei Rosa de Juiz de Fora - a lei mais conhecida
da cidade por ter sido a primeira no Brasil a permitir a manifestação de afeto entre
pessoas do mesmo sexo - seu criador, o heterossexual Paulo Rogério dos Santos
não se reelegeu vereador, apesar da enorme popularidade e a confortável posição
de presidente da Câmara. Nessa mesma
situação, podemos nos lembrar de históricas derrotas de aliados espalhados pelo Brasil
como Iara Bernardi, Marta Suplicy, Fátima Bezerra, Fátima Cleyde e outras
dezenas de candidaturas que não se consumaram diante do apoio dos gays e de
nossas bandeiras.
Poder-se-ia imputar aos candidatos homossexuais uma
trajetória histórica de baixa formação política, falta de capacitação para o
exercício político provocada pelo contexto homofóbico a que estamos submetidos
e, portanto, um desequilíbrio na disputa com os heterossexuais. Poderíamos
pensar na homofobia institucional que desestimula partidos e grupos políticos a
investirem em candidatos LGBT e reservam aos homossexuais o conhecido papel de
engordar os votos da legenda para garantir a entrada de seus protegidos sem
jamais incluí-los nesse hall. Essa lógica falha quando constatamos que até os
heterossexuais - que não se submeteram às restrições provocadas pelas
vulnerabilidades decorrentes da homofobia e não possuem motivos para estarem
fora da lista de protegidos - são sistematicamente derrotados quando se aliam
aos LGBT.
Portanto, o problema não está aí. Se fossemos tão incapazes,
não teríamos sequer um movimento social organizado, capaz de abrir canais de
interlocução com o poder. Apesar de que, isso não quer dizer muito. O fato de estarmos
na corte não significa que compartilhamos os seus poderes. O acesso que
conquistamos não implica em ganhos políticos e é preciso avaliar a qualidade
dessa interlocução com o poder: qual o papel que desempenhamos nesse cenário? Não nos esqueçamos que os bobos também fazem
parte da corte.
Poder-se-ia imputar nossas recorrentes derrotas eleitorais à
índole conservadora da sociedade brasileira, cada vez mais comprovada diante
dos enormes rebanhos evangélicos guiados por pastores primários e oportunistas.
Ainda testemunhamos histórias de campanhas eleitorais destruídas a partir de
boatos homofóbicos ou posições favoráveis à interrupção da gravidez. Somos
capazes de entregar a condução política do nosso país a analfabetos, palhaços,
rinocerontes e macacos, mas não conseguimos confiar em quem defende os gays ou
o direito das mulheres. A população brasileira não tem medo de enfrentar
bicheiros e mensaleiros, mas se borra diante da possibilidade de uma nova forma
de amor ou desenho de família.
O movimento LGBT nunca conseguiu acesso ao poder com base em
suas reivindicações e o reconhecimento de seus direitos e sim devido às nossas fragilidades.
“A entrada das pautas do movimento nas políticas públicas não se deu pelo
reconhecimento das demandas de cidadania de LGBT ou pela criação de conselhos
de direitos, mas pela política de saúde e, mais especificamente, a política de
combate às DSTs e Aids“, nos explica a socióloga Regina
Facchini. Uma vez que a paranoia coletiva da aids começa a se acalmar; o
mito da “peste gay” se desmorona na heterossexualização dos dados
epidemiológicos; os antirretroviaris se tornam eficientes no controle da doença;
e a epidemia da aids perde importância no Brasil, o movimento LGBT se vê na urgente posição de garantir que suas pautas permaneçam inseridas nas políticas públicas
governamentais através de outras portas de entrada diferentes da aids. Essas portas,
entretanto, se abrem com outras fortalezas, principalmente dinheiro e votos, o
que nos deixa de fora.
A trajetória natural das lideranças dos movimentos sociais
ao poder não nos atende. Somos ruins de voto e ruins de grana. Possuímos
somente um deputado federal gay, eleito por heteros e temos um movimento LGBT
que se debate em busca de sustentabilidade e de apoio que o tire da falência
financeira.
Ao contrário do caminho percorrido por sindicalistas,
estudantes e religiosos que se fizeram reconhecer como lideranças e que entenderam
a necessidade de invadir as arenas de poder onde se decide os rumos da atenção
pública, nós precisamos buscar outros caminhos para a emancipação da nossa
comunidade. Se a cada eleição tivermos que nos reerguer dos tombos que nos têm
fragilizado, jamais nos fortaleceremos.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Provincianismo - 03/09/2012
Uma boa avaliação das estratégias e das equipes de comunicação dos candidatos pode mostrar como se dará a política de comunicação do vencedor.
Desde menino ouvi brincadeiras sobre a terra natal da minha mãe, Caratinga: terra de gente brava, gente que não engole desaforo. Destacava-se a história do nosso Tio Doca, assassinado por adversários políticos durante as eleições de 1950, quando nossa democracia ainda engatinhava e a disputa polarizava-se entre PSD e UDN.
De lá pra cá, nossa democracia se modernizou, mas mantemos vestígios dessa selvageria tola e desrespeitosa que tornam as campanhas políticas, principalmente nas cidades do interior, uma guerra onde respingam estilhaços para todo lado. Adversários políticos desqualificam pessoas, obras e carreiras construídas durante toda uma vida, pelo simples fato de se posicionarem em lados políticos diferentes.
Esperançoso de participar e colaborar na construção de um processo político mais civilizado, tenho acompanhado os debates que se travam nas redes sociais, às vésperas das campanhas para prefeito e vereadores. Preocupa-me a forma como esse provincianismo passional se refletirá numa futura política de comunicação social na estrutura montada pelos vencedores. Como se pretende garantir uma estratégia ética e participativa num futuro governo, quando o que assistimos são comunicadores destemperados, que desrespeitam e se utilizam da desqualificação pessoal e profissional de seus não alinhados?
Os marketeiros de hoje serão os assessores de amanhã. O entendimento do que é ou como deve ser um processo de comunicação pública pode ser visto nas estratégias das campanhas e fatalmente se refletirá nos gabinetes da Prefeitura ao se proclamar um vitorioso. Quando uma assessoria de comunicação governamental se encarrega de servir a um dirigente e defender seus interesses, em detrimento dos interesses e direitos dos cidadãos, ofuscamos sua função principal que é garantir à população o acesso a informações corretas, desprovidas de interesses pessoais, de grupos, ou partidos, mesmo que majoritários.
A vitória democrática não pressupõe o extermínio dos opositores e cabe ao vencedor garantir o seu direito de expressão e o acesso de todos a informações verdadeiras e isentas. Ao contrário do que acontece durante o processo eleitoral, os serviços de comunicação governamentais não existem para construir a imagem de seus chefes, mas para garantir o direito dos cidadãos a informações e assim, efetivar o processo legítimo do controle social.
Cabe a nós avaliarmos sua forma de conduzir essas campanhas; sua reação frente aos adversários, às críticas; sua visão do processo de comunicação como um direito cidadão; e, principalmente, a forma como os candidatos enxergam e orientam seus comunicadores.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Quem tem medo do movimento gay? - 22/08/2012
Há algum tempo decidi não me chatear mais com insignificâncias
– ou insignificantes. Meses atrás acabei caindo numa dessas armadilhas que uma
resposta mal interpretada no facebook nos apronta e ganhei um grupo de
seguidores rancorosos e ávidos por uma oportunidade de desqualificar o meu
trabalho, reconhecido em todo o Brasil e no exterior; a minha trajetória como um
cidadão que escreveu seu nome na história dessa cidade e desse país; a minha
vida; por pensar diferente de mim sobre determinado assunto. O episódio me
deixou bastante chateado e essa sensação não passava, porque mesmo que eu me
calasse, meus adversários insistiam em distribuir informações equivocadas sobre
minha organização, sobre mim e meu marido.
Nunca me furtei aos debates virtuais e me enriqueço muito com
as opiniões, experiências e ensinamentos da minha rede, mas percebi que o
debate não estava aberto. As opiniões se tornaram ataques ofensivos e os
argumentos rasteiros de quem “ouvira o galo cantar, mas não sabia onde” me
fizeram avaliar que esses interlocutores não mereciam sequer minhas explicações.
Decidi bloquear nossa comunicação e deixei de me chatear. Rapidamente, constatei
que essa ausência não me fez falta nenhuma.
Hoje, algumas pessoas tentaram me jogar na mesma arapuca.
Dessa vez, o divisor de águas são as posições políticas divergentes, o que se
torna dinamite em época de eleições numa cidade do interior. Nas últimas
eleições, depois de meses de trabalho junto à nossa comunidade, a favor da petista
Margarida Salomão; depois de termos aplaudido nosso candidato a vereador nos
palanques, ao seu lado; fomos traídos por um acordo espúrio com os evangélicos,
os mesmos que tentaram difamá-la dias antes e a quem seu grupo político se
rendeu em troca de votos. Nossas
bandeiras foram convidadas a saírem daquela última manifestação em uma clara mensagem:
se for preciso rifar alguém, rifamos vocês.
Sim, fomos traídos. Traídos pelo PT aqui em Juiz de Fora,
assim como estamos sendo traídos pelo PT em Brasília, pela presidente Dilma
Rousseff e seus ministros. Medo de que? Margarida Salomão e seu grupo não
querem sequer um diálogo com o movimento LGBT. Margarida Salomão nunca esteve
numa solenidade de abertura do Rainbow Fest. Ela desconhece nossas propostas,
desconhece o grau de homofobia que existe em nossa cidade, ignora a
vulnerabilidade da nossa comunidade, se envergonha de nossas bandeiras. Jamais
nos procurou ou estendeu suas mãos para o movimento LGBT. Como reitora, jamais
reconheceu ou apoiou qualquer ação do movimento gay e nunca moveu um dedo no
sentido de promover a cidadania e a defesa dos milhares de alunos homossexuais
da UFJF.
Ao contrário do modus operandi do PT, o prefeito Custódio
Mattos nos mostrou que vencer uma eleição não significa exterminar os
adversários. Ele nos ouviu, nos entendeu e agiu. Deu andamento às demandas que
apresentamos e esteve ao nosso lado em busca de soluções eficientes e efetivas
para nossos problemas. Todos os programas sociais do governo Custódio Mattos
foram abertos às famílias homoafetivas e os programas voltados para a juventude
incluem os jovens LGBT. Muita coisa ficou por fazer, mas nada nos indica um
retrocesso.
O prefeito Custódio Mattos, como nós, desconsidera essa
falsa polarização entre os evangélicos e os homossexuais. Essa celeuma, cultivada
por fanáticos lideres religiosos e alimentada por interesses pessoais e pouco
éticos, tem provocado fissuras em importantes alicerces de nossa cultura como a
liberdade religiosa, a laicidade do estado e o respeito à individualidade do
cidadão brasileiro. Não pode e não deve ser fomentada e sequer se prestar a
moeda de troca em período eleitoral, o que já sinaliza o tipo de ética que se
deve esperar de quem o faz.
Assim, entendo que o projeto da candidatura Custódio Mattos
é mais adequado e mais vantajoso para os homossexuais de Juiz de Fora. É um
projeto que nos inclui e no qual podemos garantir políticas públicas voltadas
para a comunidade LGBT na área de saúde, educação, segurança pública, turismo,
emprego e renda e assistência social.
Por fim, retomando o tema inicial, reservo-me o direito de me
posicionar politicamente, de me expressar, de escolher meus interlocutores, de
apoiar os que me apoiam e de não me chatear.
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