sábado, 11 de julho de 2009
Loucos - 11/07/09
Muito prazer! - 04/07/09
Minha mãe amanhã completa 75 anos e me faz pensar quantas vezes vivemos esse processo e quantas pessoas diferentes já significamos um para o outro. Ninguém no mundo viveu tantas relações diferentes comigo. Desde quando eu significava somente a notícia de uma surpresa que crescia na sua barriga até quando nos vimos pela primeira vez, matamos a curiosidade e passamos a nos encantar um com o outro: eu com seu rosto jovem de quem derrama ternura e aconchego; ela, com a minha aparência de bebê de cinco dedos em cada mão, tão frágil e dependente, ávido para absorver seu leite, seu amor e sua consciência.
Foi com ela que aprendi a amar outras pessoas e, graças a esse desprendimento, conquistei o direito de me transformar rumo a um sujeito melhor, que acredita num mundo menos doído do que esse que ela viveu nos últimos 75 anos. Minha mãe guarda memórias do período da guerra, das revoluções, de mudanças radicais dos hábitos ou transformações não tão rápidas, que começaram antes dela nascer e que ainda estão em curso.
Como tantas mulheres, venceu medos e preconceitos, muitas vezes sem opção, e viu-se diante das mais extremas situações, que vão dos dramas e conflitos familiares a acidentes inimagináveis, quando vividos por uma só pessoa: uma das poucas que pode nos contar o que é sobreviver a um acidente de avião, ou como fazer para se reerguer das cinzas a partir de um incêndio em sua casa. São 75 anos de surpresas e percalços que atestam a qualidade de seu coração resistente e seu positivismo reticente.
Hoje, passa as tardes remexendo suas memórias, enquanto borda diante da televisão e revive sua epopeia de desafios vencidos a cada minuto nesses últimos três quartos de século. Machucada pela evolução dos costumes, vitoriosa em suas lutas internas, repleta de cicatrizes no corpo e na alma, essa mulher de 75 anos ainda é capaz de soltar um sorriso largo e se emocionar com as lembranças de uma canção do passado.
sábado, 27 de junho de 2009
PLC 122 - 27/06/09

Ao comemorarmos amanhã os 40 anos de Stonewall, quando os gays de Nova York enfrentaram bravamente a polícia e deram início ao movimento pela defesa e promoção de direitos dos homossexuais, nos deparamos com um Brasil que não possui sequer uma lei federal que nos contemple.
Parecia que íamos avançar na criminalização da homofobia, mas tudo indica que, se quisermos aprovar o PLC 122, teremos que partir para a negociação de um substitutivo que retardará ainda mais o processo no Senado. Enquanto isso, legitimamos sem contestar a dominação machista e hipócrita de dubles de políticos e religiosos, os mesmos clientes anônimos de aventuras noturnas com as companheiras travestis; os mesmos que deturpam as letras e usam da ignorância de seus seguidores para impedir avanços nas nossas conquistas de direitos.
A princípio acreditamos ser fácil conseguir a adesão a um projeto de lei que punisse a violência aos gays. Afinal, quem não apoiaria o combate à discriminação? Nossas leis já punem o racismo, por exemplo. Imaginamos que a opinião publica iria estar do nosso lado e cobraria apoio de seus representantes, aqueles que se auto-intitulam caridosos, defensores do estado de direito, corretos, conservadores, pacifistas e contrários à violência e à impunidade.
Doce ilusão... Foram justamente os religiosos que se levantaram para combater o projeto de lei. O que vimos foi a criação de falácias, a imposição de raciocínios que desvirtuaram nossas intenções, em nome de deuses, dogmas e pecados.
Revendo o PLC, encontramos um projeto que, na verdade deveria estar sendo questionado por outras falhas técnicas bem mais relevantes que o malfadado artigo 20 que considera crime “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.
É com base nesse artigo que os evangélicos se opõem ao PLC 122. Alegam que serão proibidos de atacar os homossexuais no púlpito de seus templos. A “mordaça gay”. Para eles, a censura; para nós, a conquista de um argumento legal que finalmente denuncia o discurso pseudo-religioso que incita a violencia, discrimina e viola nossos direitos.
O PLC 122 tem que ser revisto sim. Ele é forte na idéia, na estratégia política, quando equipara o unânime racismo à polêmica homofobia. Mas, é fraco no texto, nos conceitos desatualizados, na teimosia em avançar a qualquer custo. É preciso partir para a negociação de um substitutivo que não abra mão de nossos princípios, mas que repare a fragilidade do texto que se encontra atualmente em pauta.
Camisinha sempre!

