sábado, 20 de fevereiro de 2010

Planos - 20/02/2010



Passou o Carnaval, e as engrenagens tupiniquins começam a funcionar com seus passos lentos e enferrujados. Para um ano eleitoral em que o governo se vê obrigado a fechar os cofres em junho, esse ritmo precisa ser acelerado, sob o risco de não dar tempo de se cumprirem as metas estabelecidas.

Duas áreas governamentais se destacam na relação com o movimento LGBT e é dali que se espera uma maior efetividade: no Ministério da Saúde, principalmente no Departamento de Aids, pelo histórico da epidemia e o contexto de vulnerabilidades que nos expõem mais ao HIV; e na Secretaria dos Direitos Humanos, com ações voltadas para o fim da homofobia e promoção da cidadania LGBT.

Há muito o que se fazer. Na saúde, o Plano de Enfrentamento da Epidemia da Aids entre Gays e Travestis já começou. Uma das ações esteve na TV durante o Carnaval, na campanha dirigida aos jovens gays, em que o governo reconhece nossa existência e a seriedade da questão entre nós. Assim, na campanha da camisinha, assistimos a um casal homossexual no horário nobre, quando esses jovens e seus pais estavam diante da TV.

Ainda na saúde, é chegada a hora de colocar em prática outro documento voltado para a saúde da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Todas as letras juntas na perspectiva de se garantir acesso ao Sistema Único de Saúde de forma acolhedora, compreensiva e respeitosa. A Política Nacional da Saúde Integral LGBT, lançada em 2009, entende que orientação sexual e identidade de gênero são determinantes sociais das nossas condições de saúde e que cabe ao governo agir para garantir os princípios de equidade, universalidade e integralidade que orientam o SUS.

Na Secretaria Especial de Direitos Humanos, desde o final de 2009 duas novas instâncias passaram a cuidar dos assuntos que dizem respeito aos LGBT: uma coordenadoria e um conselho, nesse primeiro momento incumbidos de pôr em prática as propostas exaustivamente debatidas durante a 1ª Conferencia Nacional LGBT e que acabaram condensadas no Plano Nacional de Promoção da Cidadania LGBT. Aqui estão registradas as decisões acordadas entre governo e sociedade civil, e caberá tanto à Coordenadoria quanto ao Conselho Nacional LGBT garantirem recursos e vontade política para colocar em prática as quase 200 ações atribuídas aos mais de 20 órgãos federais.

Tudo isso começando efetivamente agora, depois do Carnaval. Para um ano em que, na prática, o dinheiro acaba em junho, o calendário de 2010 está puxado.

Camisinha sempre!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Drag queens - 13/02/2010




Elas entraram na pauta. De repente, tomaram de assalto as páginas dos jornais e revistas e provocaram tal confusão de conceitos que fizeram deslizar até os mais calejados nas questões LGBTs. Tanto destaque pode ser atribuído a dois fatos em foco: a presença de Dicesar - a top drag Dimmy Kieer - no "BBB10", onde se expõe 24 horas por dia ao país inteiro, e a polêmica Escola Gay de Campinas, que se propõe a capacitar interessados em aprender a arte de ser uma drag queen.

O termo drag queen é uma gíria que surgiu por volta de 1870, tanto no mundo gay quanto no teatro. E quem pensa que aqueles homens vestidos de mulher de forma exagerada se assemelham à "rainha dos dragões" numa abreviatura de "dragons" e uma relação com sua feiura pode até ter uma certa lógica. Mas, está longe das hipóteses que explicam a origem da expressão. Na verdade, drag não tem nada a ver com dragon.

Alguns entendem que a expressão parte do significado de "drag", que em seu sentido mais amplo quer dizer vestir qualquer roupa que tenha um significado simbólico, como roupas apropriadas ao gênero: vestir-se de mulher ou de homem. Outros defendem que, na verdade, "drag" seria uma sigla para "dressed as girl" (vestido como menina). Em contrapartida, existiriam os "drab" - "dressed as boy" -, mas essa nunca pegou.

A hipótese mais aceita, entretanto, vem de "drag" no sentido de "arrastar" e se relacionaria com os imensos e pesados vestidos usados no final do século XIX, que faziam com que o homem vestido de mulher literalmente se arrastasse nos palcos. A tradição do transformismo se manteve entre nós, o que criou uma associação direta entre ser gay e ser drag queen que nem sempre existe.

Tanto homens heteros quanto gays podem se montar de drags. Dimmy Kieer, assim como a maioria das drags brasileiras, é gay, mas poderia muito bem ser um ator heterossexual que incorpora um personagem para o exercício de sua profissão.

Assim como existem escolas de atores, faz todo o sentido existir uma escola que se preocupe em ensinar a arte das drag queens e mantenha viva essa nossa manifestação cultural. Na verdade, a Escola Jovem LGBT de Campinas não se propõe a uma formação identitária, mesmo porque a arte das drag queens não exige delas uma identidade de gênero feminina e, sim, talento, prontidão e flexibilidade, que é o que fazem a sua graça.


Camisinha sempre!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

General - 06/02/2010


Nessa semana, o Exército brasileiro e os gays entraram em rota de colisão. De novo. Desta vez, a homofobia foi protagonizada pelo general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, candidato a uma vaga no Supremo Tribunal Militar. O general respondia a indagações dos senadores Demóstenes Torres (DEM-GO) e Eduardo Suplicy (PT-SP), durante audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Segundo ele, "a vida militar pode não se ajustar ao comportamento desse tipo de indivíduo", referindo-se aos gays. O general Cerqueira acha que nós não nos adequamos a certas atividades próprias aos militares e que não seríamos obedecidos pela tropa. Ao seu lado, o almirante Álvaro Pinto tentou suavizar e, ao melhor estilo "don’t ask, don’t tell", repetiu o discurso, que é o retrato da hipocrisia das Forças Armadas norte-americanas, combatida diretamente pelo presidente Barack Obama. Segundo o almirante solidário, se o gay ferir a ética, for indigno, ele é contra, indicando um rigor corporativista próprio dos machos dominantes que dispensam investigações sobre ética e dignidade de seus semelhantes. E quem fala em ética e dignidade é quem nos oferece, como alternativa, o armário da mentira e do fingimento.

Essa visão de que gays são menos homens do que os heteros tem a mesma origem que a menos-valia atribuída às mulheres pelos mesmos inseguros-mal-resolvidos dominantes. O mesmo machismo que as considera incapazes atinge os gays em declarações homofóbicas como a de Cerqueira Filho, que pejorativamente nos rotula de "mulherzinhas", dando à expressão o peso do preconceito contra o que não é homem e hetero. Como se a nossa orientação sexual determinasse nossa coragem, bravura, liderança, ética e dignidade.

Para nossos militares, gays são incapazes de defenderem a nação ou serem vitoriosos em caso de guerras ou quando a situação exige coragem e altivez. Uma inversão de valores que aplaude a violência e vangloria quem é bravo e acredita na obediência em detrimento da adesão. Homem hetero só obedece homem hetero. Fica claro que Cerqueira Filho jamais se submeteria ao comando de uma mulher.

Em 2008, os sargentos Laci Marinho de Araújo e Fernando Alcântara foram vítimas da "bravura" do Exército quando assumiram, na capa da revista "Época", sua estável relação amorosa. Os militares gays foram vítima de toda espécie de retaliação e enfrentam processos que se arrastam nos tribunais militares. Hoje, além de suas atividades, dedicam-se a dar apoio a jovens que sofrem o mesmo tipo de preconceito nas Forças Armadas, ou fora delas, através de uma ONG dedicada ao assunto, em Brasília.

Recente pesquisa do Ministério da Saúde sobre comportamento, atitudes e práticas sexuais revelou que 9,9% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos já tiveram relações sexuais com pessoas do seu mesmo sexo. Em outra pesquisa, realizada na fila do alistamento militar com 35 mil conscritos do Exército nacional, 3,2% dos entrevistados enfrentaram o constrangimento homofóbico do Exército e responderam já ter se relacionado sexualmente com outros homens. Pelos critérios dos militares, a cada nova pesquisa reduzimos mais as possibilidades de encontrar quem comande as tropas.

Camisinha sempre!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Olá Bial - 30/01/10


Como os milhares de telespectadores brasileiros, acompanho sua carreira, suas crônicas e sua simpatia contagiante na tela da TV há muito tempo. Depois do "Big Brother", então, você se revelou mais ainda: é um expert em quebrar o gelo e ser ferino, sem ser deselegante e, acima de tudo, não perde a oportunidade de quebrar um preconceito.

Nesta edição do "BBB", você está diante de uma oportunidade rara de colaborar para desmistificar a imagem negativa dos gays. Primeiro, porque três cidadãos homossexuais estão sendo observados o tempo todo e terão a chance de exibir para o Brasil inteiro sua normalidade humanoide. Jean Wyllys cumpriu esse papel primorosamente no "BBB 5".

Como o Dicesar, existem aos montes e, como o Serginho, brotam jovens gays em qualquer terreno deste planeta. As Angélicas convivem conosco no dia a dia e suas dores e estratégias são nossas velhas conhecidas. Mas aqui, na vida real, o preconceito ofusca esses personagens e as informações sobre os maquiadores que trabalham como drag queens, sobre os fashionistas afetados e sobre as lésbicas-ladies-femininas não ultrapassam a "página 2": a homofobia ofusca e não deixa que as pessoas nos vejam alem de nossa homossexualidade.

Assim, pensei que você seria o melhor porta-voz para esclarecer conceitos que acabam provocando a homofobia e um colaborador nessa luta que não é só nossa, mas de todos que acreditam que o mundo é melhor sem preconceitos. Por que não esclarecer e ajudar a evitar expressões que, mesmo inconscientemente, reproduzem o preconceito contra os gays?

O que é LGBT? São dois ou um só T? A expressão "bichice" ofende os gays? Um rapaz é gay porque dança "mais solto"? Quando uma pessoa é gay? Por que um beijo entre dois homens é agressivo para uma criança e os tiros, socos e assassinatos dos desenhos animados não são? Por que alguns gays não estão satisfeitos de serem quem são e, se tivessem outra chance, preferiam nascer heteros?

Já ficou claro que não serão os gays que estão lá que irão ajudar a esclarecer a população. Dicesar, Serginho e Angélica limitam-se a viverem sua homossexualidade. Seus argumentos são limitados e, como eles, existem milhões de LGBT que se bastam com um conhecimento funcional das bandeiras e lutas do movimento gay.

Você, por outro lado, é o jornalista que fala para o Brasil todo e faz a ponte entre os "brothers" e o mundo real. É quem pode esclarecer dúvidas e encontrar argumentos que façam com que o "Big Brother Brasil 10" ultrapasse os limites do reality show e ajude a efetivamente quebrar preconceitos e evitar que a homofobia seja naturalizada em caricaturas e palhaçadas.

Camisinha sempre!