segunda-feira, 4 de junho de 2018

Fiz 60 anos!


E de repente, assim de repente, eu fiz 60 anos. Chego aqui envelhecido, porém saudável; maduro, mas capaz de me divertir com coisas infantis; capaz de sonhar como se tivesse 20 anos, mas ciente das dores dos tombos e dos perigos das alturas; repleto de cicatrizes que documentam a história de um corpo gasto, usado, esfolado, mas inteiro, capaz ainda de peripécias de rapazes, por mais improvável que eu poderia imaginar quando rapaz.

Chego aqui mais leve, sem carregar o peso das ilusões e sem o fardo da culpa pelo que deu errado: o que foi possível já foi feito; agora é só arrematar. Chego também mais pesado, por um lado, pelo peso dos tropeços e arrependimentos; e, por outro, pelos troféus e medalhas que marcam o que deu certo. Fora o peso que aparece na balança.

Menos cabelos e mais cabeça; poucos amigos, mas mais sinceridade; menos pressa, menos futuro, menos dúvidas. Mais contemplação, lembranças e experiências. 

Chego aos 60 anos rodeado de pessoas que me amam e observado de longe por algumas que não. Ainda bem! Minha mãe, meus filhos, irmãos, todos vivos e bem; repleto de sobrinhos, sobrinhos-netos, sempre me lembrando o que eu fui e o quanto é cedo ainda para se chegar à conclusões finais. Chego casado, amando a pessoa que escolhi viver ao lado e que lutei – e ainda luto – para ter esse direito; reconhecendo e respeitando os nossos limites, virtudes e defeitos; construindo juntos nosso lar, nossa cidadania e nossa compreensão de família, companheirismo e amor. Marco Trajano me faz chegar aos 60 anos mais feliz e seguro de que não sofreremos a solidão.

Quero agradecer a todos pelas mensagens carinhosas que me enviaram no dia 1º e dizer que cada uma que chegou acalentou um pouquinho o meu coração. Espero que a vida nos ajude a encontrar mais motivos para continuarmos juntos do que o contrário. E que essa minha visita à sua memória tenha sido tão prazerosa quanto a de vocês à minha!




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Passa na 307 - Sul; no Simpsons


Muito se falou, muito se propôs, muito se planejou. Gastamos fortunas para colocar governo e sociedade civil, lado a lado, pensando e propondo ações que pudessem por fim à homofobia no Brasil. Produzimos muito papel e muitas letras, criamos GT, Coordenadorias, Conselhos, Fóruns, Redes, Congressos, Seminários, Painéis, Conferencias... O MGM participou de quase todos e por um tempo acreditamos mesmo que estávamos no caminho certo, ao lado das pessoas certas e trabalhando para um país melhor, não para partidos políticos.
Com o passar do tempo, fui percebendo o quanto as propostas continuavam no papel, o quanto não avançavam para além dos debates e de outras novas propostas, novos GT, novos Conselhos, novos planos. Não percebia nenhuma intenção concreta de se mudar esse quadro. Pelo contrário, vimos perdoando e relevando constantes tropeços que secundarizavam nossas bandeiras, muitas vezes para atender exigências de negociatas de apoio político com os conservadores. Para garantir o movimento LGBT ao seu lado, em detrimento do pouco ou nenhum avanço das nossas bandeiras, há anos o governo alimenta as organizações LGBT com migalhas essenciais e mantem suas lideranças como escudos protetores de sua inércia. E não precisa muito: o apoio - ou o silêncio - pode ser trocado pelo patrocínio de um encontro nacional dos dirigentes de ONG LGBT; ou pelo apoio financeiro a um projeto para a ONG alinhada com o pensamento governista.
Um dia percebi também o quanto eu estava envolvido nessa teia e o quanto estávamos sendo usados para legitimar essa falta de atitude do governo, que alardeava aos quatro ventos do planeta seus programas e projetos voltados para o combate à homofobia, mas que não movia uma palha no sentido de criminalizá-la e que não trazia para si a responsabilidade de garantir aos homossexuais o mesmo nível de segurança do resto da população não submetida ao preconceito por orientação sexual ou identidade de gênero.
Durante todo esse tempo, o governo se limitou a construir planos e represou todas as críticas através do financiamento de projetos para as ONG aliadas - eventualmente daquelas mais barraqueiras - que foram quem efetivamente botou a mão na massa. O governo se acovardou diante do material produzido pelo Programa Escola sem Homofobia - financiamento do MEC para a ABGLT; se acovardou diante da campanha orientada para os jovens gays, maiores vítimas da aids, toda pensada e produzida por um GT formado por experts em Comunicação. O pouco que se fez nunca colocou o governo visível ao lado da luta contra a homofobia para além dos muros do gueto LGBT. Esse governo sempre se manteve ausente, desconfortável com esse assunto.
Ao invés de criminalizar a homofobia, esse governo acabou por criminalizar as ONG, acusadas de envolvimento com desvios ou malversação do dinheiro público e acabou colocando cidadãos de bem, trabalhadores, ativistas, idealistas, comprometidos com um país melhor, na condição de inadimplentes ou desonestos.
Nossas famílias estão preocupadas com a nossa segurança. A polarização incentivada por esse governo que se diz de esquerda - considerando que "os outros" são da direita; que se diz correto, enquanto os outros não o são; que aceita conviver e pactua com uma falsa contraposição entre homossexuais e religiosos; tudo isso tem nos colocado em risco. Risco de vida.
Não precisa ir tão longe assim para ver: passa lá na 307 Sul, no Simpsons.*

* "
Na noite de terça (7/10/14), quatro estudantes de 22 e 23 anos foram agredidos no bar, localizado na quadra 307 da Asa Sul. Seis pessoas teriam xingado e feito gestos ofensivos em função da orientação sexual de alguns deles.

Um dos jovens foi ferido no rosto por uma garrafa de cerveja, jogada em direção a ele. Outro, acabou agredido com chutes e socos e precisou ser encaminhado ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Mais tarde, foi transferido ao Hospital de Base do DF (HBDF) para passar por uma cirurgia de urgência. A jaqueta de couro de um deles também foi levada por um dos integrantes do grupo."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O PSC e sua ameaça à familia



Muito cinismo por parte dos políticos do PSC no programa que foi ao ar ontem. Muita hipocrisia por trás do bordão "sou família; sou PSC!". Num tom angelical, pastores de todo o Brasil vestiram suas capas mofadas de deputados e seus sorrisos mais simpáticos para promover o retrocesso, o conservadorismo atrasado, disfarçado de modernidade-com-responsabilidade. Faltaram asinhas de anjos nas imagens das famílias tradicionais, cuja cor das roupas, ironicamente, formavam a bandeira do arco-íris. Para quem tem acompanhado de perto os deslizes desses "defensores da família brasileira", era possível filtrar o tom de deboche e escárnio por trás de cada sorriso daqueles deputados.

O PSC inventou uma tal de "ameaça à família", que ninguém sabe exatamente do que se trata, mas sabe exatamente de onde vem: dos gays e das feministas, conforme demonstram. Insiste num discurso fantasioso de defesa dos ameaçados e se esquece que as "ameaças" são o produto da falência desse modelo hierárquico e autoritário de família. Levadas a buscar no além a solução de seus problemas como os de saúde, educação, segurança, direitos, esquecem que isso é responsabilidade do estado, e não de Deus ou de pastores. A luta pela garantia dos direitos das novas configurações de família não destrói sequer o desenho tradicional, uma vez que não tira seus direitos e nem viola seus exemplos.

No programa, o PSC mostrou o movimento #forafeliciano como uma baderna e as mulheres que defendem o direito sobre o seu corpo como assassinas. Resvalou na necessidade de investimentos em educação e lazer para os jovens, mas foi enfático na defesa da redução da maioridade penal, cujo projeto os enaltece.

Feliciano estava lá provocando, irônico: "... um Brasil melhor para todas as famílias!"  Todas. Sei...

É claro que, quando Malafaia apoiou o Serra, em detrimento do Haddad e criou aquela celeuma do "kit gay"; ou quando Feliciano, em entrevista ao Danilo Gentilli insinuou que Dilma estava jogando fora o apoio dos evangélicos; o PT percebeu que fora traído, o que pressupõe rompimento dos acordos antes estabelecidos. Depois desse programa, quando o PSC lança sua candidatura independente, enfrentando o PT nas próximas eleições para presidente, não há mais o que se questionar: chegou a hora do PT rasgar aquele acordo eleitoral entre a Dilma e os evangélicos e fazer aquilo que deve fazer em defesa da população LGBT. Se é que esse era o impeditivo, não sei o que mais a Dilma está esperando para sair conosco do armário!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Mais uma cama de gato no movimento gay?


No início de junho de 2012, o Departamento DST-aids-HV do Ministério da Saúde convocou jovens gays e especialistas para uma oficina de três dias onde produziriam uma campanha de prevenção dirigida aos jovens gays. Esse tipo de estratégia (oficinas e materiais produzidos por representantes do público alvo das campanhas) encontrou lugar no Departamento e já foi utilizado algumas vezes, já que, a um custo relativamente baixo e com o envolvimento das lideranças do segmento, chega-se a um resultado moderno e adequado para as novas mídias e redes sociais.

Cerca de 20 jovens gays estiveram em Recife e participaram das oficinas de vídeo, de grafite, de maquiagem, de DJ, amparados por especialistas em comunicação, vídeos, arte, aids, direitos, ativismo e colocaram a mão na massa para cumprirem um objetivo que se propunha a trabalhar poesia e intervenção urbana, redes sociais, universo drag queen e de produção de vinhetas.

Essa Oficina de Comunicação em Saúde para Jovens Gays gerou alguns produtos que até hoje encontram-se no “arquivo morto” do Departamento, temeroso de propor o seu lançamento e, mais uma vez, se indispor com o Ministro, com a SECOM e a Presidência da República, já que fala de sexo, direitos e homossexualidade.

O movimento gay - que encontra no Departamento de Aids seu único refúgio orçamentário num governo que foge desse assunto como o diabo da cruz – parece sentir-se satisfeito com a realização da oficina, como se assim a proposta tivesse concluída. Aliás, temos nos satisfeito com planos, projetos, conferências, seminários e oficinas que não saem do papel e nunca são colocados em prática. Há mais de 10 anos!

É desolador imaginar que as verbas empenhadas nessas oficinas e nas campanhas prontas e vetadas são jogadas fora, enquanto poderiam fazer muito mais diferença se aplicadas na ponta, no trabalho corpo a corpo com os jovens gays ou nas intervenções comportamentais que vêm fazendo diferença em outros países.

Onde está a campanha que foi trabalhada em Recife? Vai sair ou não vai? Ou estamos testemunhando mais uma cama de gato no movimento gay?


http://www.aids.gov.br/video/2012/52133

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ruins de voto e ruins de grana - 08/10/2012




É hora de rever as estratégias políticas do nosso movimento.  É o que mais se tem ouvido nos últimos dias, repetindo pela enésima vez o discurso LGBT que sucede as eleições brasileiras. O movimento LGBT perde eleição até para si mesmo.

São inúmeros os exemplos de derrotas sofridas por nós. Nas eleições de 2000, ano de aprovação da Lei Rosa de Juiz de Fora - a lei mais conhecida da cidade por ter sido a primeira no Brasil a permitir a manifestação de afeto entre pessoas do mesmo sexo - seu criador, o heterossexual Paulo Rogério dos Santos não se reelegeu vereador, apesar da enorme popularidade e a confortável posição de presidente da Câmara. Nessa mesma situação, podemos nos lembrar de históricas derrotas de aliados espalhados pelo Brasil como Iara Bernardi, Marta Suplicy, Fátima Bezerra, Fátima Cleyde e outras dezenas de candidaturas que não se consumaram diante do apoio dos gays e de nossas bandeiras.

Poder-se-ia imputar aos candidatos homossexuais uma trajetória histórica de baixa formação política, falta de capacitação para o exercício político provocada pelo contexto homofóbico a que estamos submetidos e, portanto, um desequilíbrio na disputa com os heterossexuais. Poderíamos pensar na homofobia institucional que desestimula partidos e grupos políticos a investirem em candidatos LGBT e reservam aos homossexuais o conhecido papel de engordar os votos da legenda para garantir a entrada de seus protegidos sem jamais incluí-los nesse hall. Essa lógica falha quando constatamos que até os heterossexuais - que não se submeteram às restrições provocadas pelas vulnerabilidades decorrentes da homofobia e não possuem motivos para estarem fora da lista de protegidos - são sistematicamente derrotados quando se aliam aos LGBT.

Portanto, o problema não está aí. Se fossemos tão incapazes, não teríamos sequer um movimento social organizado, capaz de abrir canais de interlocução com o poder. Apesar de que, isso não quer dizer muito. O fato de estarmos na corte não significa que compartilhamos os seus poderes. O acesso que conquistamos não implica em ganhos políticos e é preciso avaliar a qualidade dessa interlocução com o poder: qual o papel que desempenhamos nesse cenário?  Não nos esqueçamos que os bobos também fazem parte da corte.

Poder-se-ia imputar nossas recorrentes derrotas eleitorais à índole conservadora da sociedade brasileira, cada vez mais comprovada diante dos enormes rebanhos evangélicos guiados por pastores primários e oportunistas. Ainda testemunhamos histórias de campanhas eleitorais destruídas a partir de boatos homofóbicos ou posições favoráveis à interrupção da gravidez. Somos capazes de entregar a condução política do nosso país a analfabetos, palhaços, rinocerontes e macacos, mas não conseguimos confiar em quem defende os gays ou o direito das mulheres. A população brasileira não tem medo de enfrentar bicheiros e mensaleiros, mas se borra diante da possibilidade de uma nova forma de amor ou desenho de família.

O movimento LGBT nunca conseguiu acesso ao poder com base em suas reivindicações e o reconhecimento de seus direitos e sim devido às nossas fragilidades. “A entrada das pautas do movimento nas políticas públicas não se deu pelo reconhecimento das demandas de cidadania de LGBT ou pela criação de conselhos de direitos, mas pela política de saúde e, mais especificamente, a política de combate às DSTs e Aids“, nos explica a socióloga Regina Facchini. Uma vez que a paranoia coletiva da aids começa a se acalmar; o mito da “peste gay” se desmorona na heterossexualização dos dados epidemiológicos; os antirretroviaris se tornam eficientes no controle da doença; e a epidemia da aids perde importância no Brasil, o movimento LGBT se vê na urgente posição de garantir que suas pautas permaneçam inseridas nas políticas públicas governamentais através de outras portas de entrada diferentes da aids. Essas portas, entretanto, se abrem com outras fortalezas, principalmente dinheiro e votos, o que nos deixa de fora.

A trajetória natural das lideranças dos movimentos sociais ao poder não nos atende. Somos ruins de voto e ruins de grana. Possuímos somente um deputado federal gay, eleito por heteros e temos um movimento LGBT que se debate em busca de sustentabilidade e de apoio que o tire da falência financeira.

Ao contrário do caminho percorrido por sindicalistas, estudantes e religiosos que se fizeram reconhecer como lideranças e que entenderam a necessidade de invadir as arenas de poder onde se decide os rumos da atenção pública, nós precisamos buscar outros caminhos para a emancipação da nossa comunidade. Se a cada eleição tivermos que nos reerguer dos tombos que nos têm fragilizado, jamais nos fortaleceremos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Provincianismo - 03/09/2012



Uma boa avaliação das estratégias e das equipes de comunicação dos candidatos pode mostrar como se dará a política de comunicação do vencedor.



Desde menino ouvi brincadeiras sobre a terra natal da minha mãe, Caratinga: terra de gente brava, gente que não engole desaforo. Destacava-se a história do nosso Tio Doca, assassinado por adversários políticos durante as eleições de 1950, quando nossa democracia ainda engatinhava e a disputa polarizava-se entre PSD e UDN.

De lá pra cá, nossa democracia se modernizou, mas mantemos vestígios dessa selvageria tola e desrespeitosa que tornam as campanhas políticas, principalmente nas cidades do interior, uma guerra onde respingam estilhaços para todo lado. Adversários políticos desqualificam pessoas, obras e carreiras construídas durante toda uma vida, pelo simples fato de se posicionarem em lados políticos diferentes.

Esperançoso de participar e colaborar na construção de um processo político mais civilizado, tenho acompanhado os debates que se travam nas redes sociais, às vésperas das campanhas para prefeito e vereadores. Preocupa-me a forma como esse provincianismo passional se refletirá numa futura política de comunicação social na estrutura montada pelos vencedores. Como se pretende garantir uma estratégia ética e participativa num futuro governo, quando o que assistimos são comunicadores destemperados, que desrespeitam e se utilizam da desqualificação pessoal e profissional de seus não alinhados?

Os marketeiros de hoje serão os assessores de amanhã. O entendimento do que é ou como deve ser um processo de comunicação pública pode ser visto nas estratégias das campanhas e fatalmente se refletirá nos gabinetes da Prefeitura ao se proclamar um vitorioso. Quando uma assessoria de comunicação governamental se encarrega de servir a um dirigente e defender seus interesses, em detrimento dos interesses e direitos dos cidadãos, ofuscamos sua função principal que é garantir à população o acesso a informações corretas, desprovidas de interesses pessoais, de grupos, ou partidos, mesmo que majoritários.

A vitória democrática não pressupõe o extermínio dos opositores e cabe ao vencedor garantir o seu direito de expressão e o acesso de todos a informações verdadeiras e isentas. Ao contrário do que acontece durante o processo eleitoral, os serviços de comunicação governamentais não existem para construir a imagem de seus chefes, mas para garantir o direito dos cidadãos a informações e assim, efetivar o processo legítimo do controle social.

Cabe a nós avaliarmos sua forma de conduzir essas campanhas; sua reação frente aos adversários, às críticas; sua visão do processo de comunicação como um direito cidadão; e, principalmente, a forma como os candidatos enxergam e orientam seus comunicadores.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Quem tem medo do movimento gay? - 22/08/2012




Há algum tempo decidi não me chatear mais com insignificâncias – ou insignificantes. Meses atrás acabei caindo numa dessas armadilhas que uma resposta mal interpretada no facebook nos apronta e ganhei um grupo de seguidores rancorosos e ávidos por uma oportunidade de desqualificar o meu trabalho, reconhecido em todo o Brasil e no exterior; a minha trajetória como um cidadão que escreveu seu nome na história dessa cidade e desse país; a minha vida; por pensar diferente de mim sobre determinado assunto. O episódio me deixou bastante chateado e essa sensação não passava, porque mesmo que eu me calasse, meus adversários insistiam em distribuir informações equivocadas sobre minha organização, sobre mim e meu marido.

Nunca me furtei aos debates virtuais e me enriqueço muito com as opiniões, experiências e ensinamentos da minha rede, mas percebi que o debate não estava aberto. As opiniões se tornaram ataques ofensivos e os argumentos rasteiros de quem “ouvira o galo cantar, mas não sabia onde” me fizeram avaliar que esses interlocutores não mereciam sequer minhas explicações. Decidi bloquear nossa comunicação e deixei de me chatear. Rapidamente, constatei que essa ausência não me fez falta nenhuma.

Hoje, algumas pessoas tentaram me jogar na mesma arapuca. Dessa vez, o divisor de águas são as posições políticas divergentes, o que se torna dinamite em época de eleições numa cidade do interior. Nas últimas eleições, depois de meses de trabalho junto à nossa comunidade, a favor da petista Margarida Salomão; depois de termos aplaudido nosso candidato a vereador nos palanques, ao seu lado; fomos traídos por um acordo espúrio com os evangélicos, os mesmos que tentaram difamá-la dias antes e a quem seu grupo político se rendeu em troca de votos.  Nossas bandeiras foram convidadas a saírem daquela última manifestação em uma clara mensagem: se for preciso rifar alguém, rifamos vocês.

Sim, fomos traídos. Traídos pelo PT aqui em Juiz de Fora, assim como estamos sendo traídos pelo PT em Brasília, pela presidente Dilma Rousseff e seus ministros. Medo de que? Margarida Salomão e seu grupo não querem sequer um diálogo com o movimento LGBT. Margarida Salomão nunca esteve numa solenidade de abertura do Rainbow Fest. Ela desconhece nossas propostas, desconhece o grau de homofobia que existe em nossa cidade, ignora a vulnerabilidade da nossa comunidade, se envergonha de nossas bandeiras. Jamais nos procurou ou estendeu suas mãos para o movimento LGBT. Como reitora, jamais reconheceu ou apoiou qualquer ação do movimento gay e nunca moveu um dedo no sentido de promover a cidadania e a defesa dos milhares de alunos homossexuais da UFJF.

Ao contrário do modus operandi do PT, o prefeito Custódio Mattos nos mostrou que vencer uma eleição não significa exterminar os adversários. Ele nos ouviu, nos entendeu e agiu. Deu andamento às demandas que apresentamos e esteve ao nosso lado em busca de soluções eficientes e efetivas para nossos problemas. Todos os programas sociais do governo Custódio Mattos foram abertos às famílias homoafetivas e os programas voltados para a juventude incluem os jovens LGBT. Muita coisa ficou por fazer, mas nada nos indica um retrocesso.

O prefeito Custódio Mattos, como nós, desconsidera essa falsa polarização entre os evangélicos e os homossexuais. Essa celeuma, cultivada por fanáticos lideres religiosos e alimentada por interesses pessoais e pouco éticos, tem provocado fissuras em importantes alicerces de nossa cultura como a liberdade religiosa, a laicidade do estado e o respeito à individualidade do cidadão brasileiro. Não pode e não deve ser fomentada e sequer se prestar a moeda de troca em período eleitoral, o que já sinaliza o tipo de ética que se deve esperar de quem o faz.

Assim, entendo que o projeto da candidatura Custódio Mattos é mais adequado e mais vantajoso para os homossexuais de Juiz de Fora. É um projeto que nos inclui e no qual podemos garantir políticas públicas voltadas para a comunidade LGBT na área de saúde, educação, segurança pública, turismo, emprego e renda e assistência social.

Por fim, retomando o tema inicial, reservo-me o direito de me posicionar politicamente, de me expressar, de escolher meus interlocutores, de apoiar os que me apoiam e de não me chatear.

domingo, 20 de maio de 2012

Tobby Queen explica polêmicas - 20/05/2012





(paródia do texto original de Jarbas Aragão - Silas Malafaia explica “rompimento” com Edir Macedo e Valdemiro Santiago


O ativista Tobby Queen 53 anos, não teme polêmicas. Neste sábado (19) ele foi um dos líderes da Parada Gay no Rio de Janeiro, que reuniu mais de 300 mil pessoas. Há 30 anos pregando na televisão, seu programa “Amor entre iguais” é exibido todos os sábados na Band, Rede TV e CNT. Durante a semana apenas na CNT. Mensalmente paga R$ 900 mil para a Rede TV, R$ 450 mil para a CNT, e um valor não divulgado para a Rede Bandeirantes. Tem ainda uma versão dublada de seus programas exibida em mais de 200 países via satélite.

Seu pai foi militar da Aeronáutica e mãe, educadora, ambos eram bissexuais. Casado com Elizeu, que conheceu aos 14 anos, o casal adotou três filhos.

Em entrevista publicada pelo portal GI neste sábado, ele respondeu várias perguntas, sem fugir das polêmicas a que está acostumado.

Ele ressaltou que a Parada Gay do Rio este ano é baseada em quatro princípios: em favor da liberdade de expressão, da vida, da liberdade de orientação sexual e dos novos formatos de família compostas por dois homens ou duas mulheres e seus filhos.

Queen mais uma vez afirmou porque é a favor da união de homossexuais, mas negou ter preconceito contra os evangélicos. E foi mais além. “Preconceito religioso é falácia de pastores evangélicos para manter verbas para suas igrejas para fazer propaganda de que o Brasil é um país evangélico. Preconceito uma vírgula, amigo”.

Enfatizou que “As igrejas evangélicas passam de usuários da liberdade de expressão para censores. Essa lei, como está aqui no Brasil, deveria existir em todo lugar do planeta Terra. Ela reforça diretamente  a Constituição, é uma dádiva. A Constituição diz que ninguém pode ser cerceado por ser homossexual. É uma lei que nos iguala em direitos”.

Perguntado o que faria se o seu filho fosse evangélico, Tobby foi categórico: “Amaria 100% e condenaria sua prática 100%. Não deixaria de amá-lo, mas garanto que ia condenar. Há uma ideia na sociedade de que amar é ser tolerante e encobrir o erro do outro. Pelo contrário, amar é dizer a verdade e confrontar o outro para ajudá-lo a ser melhor”.

Ao falar sobre outra de suas bandeiras, o aborto, declarou: “sou a favor de qualquer tipo de aborto e te explico o motivo. Na gestação, o que deve ser assegurado é o direito dessa mãe sobre suas próprias decisões. Milhares de mulheres morrem nas mãos de profissionais despreparados em procedimentos de interrupção da gravidez clandestinos e outras milhares vêm seus sonhos interrompidos por uma falta de orientação sobre contracepção e acesso a insumos como preservativos ou pílulas anticoncepcional. Crianças não podem ser geradas para doação; mulheres não são máquinas procriativas!

(...)

Tobby também foi questionado sobre suas campanhas que pedem doações financeiras e que muitas vezes são criticadas. Sua resposta foi “Não posso prometer aquilo que não tenho poder para dar. Uma coisa é dizer (eleva o tom de voz): me dê uma oferta que você vai comprar a sua casa própria. Outra coisa é dizer (abaixa o tom de voz): meus irmãos, quero fazer uma campanha pelos direitos dos homossexuais para quem desejar. Se você não quer, não faça.

Quer ir à minha ONG para ver os testemunhos de quantas pessoas que moravam de aluguel compraram a casa própria? Irmão, com todo respeito, não sou um ativista analfabeto. Tenho formação. Não sou um mané e nem minha ONG é de idiotas. Se chego na minha ONG e digo que, se o cara der uma oferta, ele ganha aquilo, sou colocado pra fora”.

Ele explica que seu sustento vem dos seus negócios: “Sou dono da editora Central Gay… segunda maior editora LGBT do País. Ela fatura mais de R$ 50 milhões por ano… Sou o ativista que mais vende palestras em DVD e livros no País. No ano passado, só a Avon comprou mais de 500 mil livros meus. Nos últimos cinco anos, vendi em cada ano mais de um milhão de livros. Como tenho outro meio de renda, abri mão do salário da ONG”.

Mas fez uma ressalva: “Meu amigo, o único animal que tenho é um cachorro, não tenho gado, fazenda nem sítio. Moro em uma boa casa em um condomínio no Recreio dos Bandeirantes (zona oeste do Rio), que adquiri a cinco ou seis anos. Tenho minha consciência limpa”.

Por fim, explicou quanto ganham os ativistas de sua organização, a  Assembleia LGBT: “Tenho ativistas que ganham entre R$ 4 mil e R$ 22 mil. Ativistas gays, lésbicas e travestis que mando para outro estado, pago casa, água, luz, escola dos filhos, gasolina. Dou dignidade aos caras. Não trabalho com zé bobão. Tinha dois ativistas que eram advogados e possuíam escritórios de advocacia. Cheguei e perguntei: amigo, o que você quer ser? Militante LGBT ou advogado? Qual é teu chamado? Ativista? Então fecha essa porcaria e vem comigo. Não tenho gente que não ia ser nada na vida e virou ativista”.


Original em: http://noticias.gospelprime.com.br/silas-malafaia-explica-rompimento-com-edir-macedo-e-valdemiro-santiago/#ixzz1vPSOJHRw

sábado, 19 de maio de 2012

Fogo cruzado - 19/05/2012


Os movimentos sociais organizados estão em crise. Centenas de organizações não governamentais, até bem pouco tempo únicas responsáveis por realizar importantes ações como assistência, formação e controle social, encerram suas atividades, deixam milhares de órfãos e, em alguns casos, colocam cidadãos honestos e de boa fé na desagradável situação de "inadimplentes" junto aos órgãos públicos.

Mas, os problemas não começaram agora e sua origem pode ser atribuída à relação que se estabeleceu entre essas organizações (não governamentais) e o governo. A maioria das ONG brasileiras, notadamente aquelas que trabalham com as populações com dificuldade de acesso aos serviços públicos, entre elas os gays, as lésbicas, as travestis, foram durante muitos anos sustentadas com recursos governamentais, sob a égide de ações afirmativas que acabaram submetendo-as a convênios draconianos, cujas regras não se ajustam à sua realidade.

Assim, por trás de um véu de autonomia, muitas ONG trocaram suas convicções pela estabilidade financeira garantida com recursos de projetos governamentais e obviamente, calaram o seu descontentamento quando a fonte secou. A partir de regras cada vez mais excludentes, os poucos, raros e difíceis recursos disponíveis hoje para financiamento de projetos se tornaram inatingíveis para a maioria das organizações. Sem recursos, encerram suas atividades.

Apesar de seu discurso de fortalecimento da sociedade civil, os últimos governos se utilizaram dos recursos investidos no financiamento das ONG para comprar fidelidade e calar os movimentos sociais. E fez isso através de lideranças dispostas a celebrar quaisquer acordos, desde que mantidos seu acesso ao poder – e aos cofres.

A legislação que regulamenta os convênios com as ONG é generalista, passível de interpretações e repleta de brechas que possibilitam a transferência do dinheiro público a projetos definidos como estratégicos a partir do olhar de gestores comprometidos com interesses de grupos ou partidos políticos. Foi ela que fez com que as ONG se tornassem um gargalo para o escoamento de recursos que financiaram ilegalmente campanhas políticas e outras formas de corrupção.

Agora, comodamente, o governo busca na rigidez do controle das ONG uma saída para desviar o foco principal do problema, uma vez que a grande maioria dos recursos desviados financiou aqueles que hoje se encontram no poder. Quando os escândalos vêm à tona, o governo sacrifica as ONG em sua totalidade, mistura joio e trigo, fecha as torneiras, aumenta as exigências burocráticas e causa o fechamento também de centenas de organizações sérias que vinham fazendo a diferença em suas ações sociais. Enquanto isso, dá inicio à discussão sobre as mudanças no marco legal do terceiro setor, mais preocupado com controles e transparência que propriamente com soluções realistas que consigam resgatar os parceiros perdidos.

As organizações não governamentais LGBT estão entre as mais atingidas por essa crise. Incapazes de atender às hercúleas exigencias burocráticas impostas pelo governo e agências internacionais, tradicionais financiadoras de projetos da sociedade civil organizada, enfrentam ainda a revolta dos próprios LGBT, tão generalistas quanto o governo, determinados a apoiarem a desconstrução do movimento como está, sem saber o que colocar no lugar.

Por outro lado, as ONG LGBT ainda não possuem capacidade técnica suficiente para alcançar os recursos da iniciativa privada ou de fundações internacionais. Ainda não dispõem de recursos financeiros, materiais e humanos para responder às exigências de financiadores preocupados em apresentar a seus doadores resultados concretos, definidos a partir de indicadores cada vez mais complexos. Além disso, o pobre movimento LGBT jamais conseguiu captar recursos da população LGBT.

Assim, entre o fogo cruzado do governo, dos conservadores e da própria comunidade LGBT, as ONG que construíram o movimento gay brasileiro, que ajudaram a controlar a epidemia da aids no Brasil, que fazem as estrondosas paradas do orgulho LGBT, que lutaram por direitos tão básicos que hoje os próprios homossexuais menosprezam, entre outros méritos, vão desparecendo. E, na medida em que a homofobia sai do armário, fazendo falta.


Publicada originalmente na Revista H #2

sábado, 7 de abril de 2012

Diálogo presidencial - 7/4/2012



Bem que o presidente Barack Obama podia conversar com a presidente Dilma Roussef sobre o combate à homofobia e os direitos dos homossexuais no Brasil. Poderia aproveitar essa viagem que se propõe a conquistar o apoio norte-americano a uma vaga permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU; além de uma vasta pauta com os setores da economia e da educação. Nenhuma previsão de se conversar sobre direitos humanos e a cutucada que a presidente Dilma deu nos Estados Unidos durante sua visita a Cuba, referindo-se ao campo de detenção de Guantánamo, vai ficar por isso mesmo.

Mas, bem que o presidente Obama poderia puxar o assunto:

_ So, dear Dilma, fiquei sabendo que o problema dos gays e lésbicas no Brasil está ficando sério. Vocês abandonaram seus programas de combate à homofobia?


_ Olha, Obama, vamos deixar esse assunto para uma outra hora. Meu partido fez um acordo com os grupos evangélicos brasileiros e, em troca de seus votos nos comprometemos a não tocar em nada que diga respeito aos direitos dos gays. So...

_ But, que resposta o seu governo tem dado aos assassinatos por homofobia que têm colocado o Brasil na sad pole position dos crimes contra os homossexuais? Dear Dilma, os dados do GGB, que rodam o mundo, apontam 260 mortes por homofobia em 2011! Isso sem contar a questão do bullying homofóbico, da violência na família, as agressões... Vocês não estão preocupados com isso?

_ Obama, meu querido, vamos conversar sobre café, suco de laranja, computadores, tablets... Vamos fazer tablets no Brasil? Bora? E a Copa do Mundo? Você vai?

_ Please, Dilma, está crescendo muito o número de pedido de asilo que recebemos de gays e lésbicas brasileiros que se sentem ameaçados e com suas vidas em perigo pelos simples fato de serem homossexuais. Aliás, eu soube que você proibiu uma campanha de TV que promovia o uso do preservativo entre os jovens gays, mesmo diante do crescimento assustador da infecção entre eles. Isso não te comove?

_ Qualé, Obama, imagina o problemão que eu teria? Se o governo brasileiro admitir que existem jovens gays e que eles namoram no Brasil, os evangélicos - você sabe como eles são conservadores – pedem a minha cabeça! Não! Deixe esses gays para lá! Quem sabe um próximo presidente... Eu não levo muito jeito para esse tipo de assunto.

_ Well, assim vai ser difícil melhorar a vida e garantir os direitos desses brasileiros, Dilma. Aqui nos EUA ajudei numa campanha contra o suicídio de jovens gays, “It gets better!”, e apoio a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Tenho gays e lésbicas assumidos no meu staff e sempre os convido para nossas cerimônias e premiações. I’m so sorry!

_ Fica assim, não, rapaz! Vamos falar de negócios, let’s go? Ô Pimentel! Ô Mercadante! Acode aqui!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Reis dos bobos - 30/3/2012



A receita é primária. Eleja os desiludidos como prioritários. Não como líderes, mas como massa. Prometa alívio a suas dores, simplifique a análise dos problemas, elimine os raciocínios complexos. Nada deve levá-los a pensarem muito. As soluções devem vir prontas e conter uma pitada de magia: a compreensão do “milagre” possível. Os debates não devem ultrapassar os limites do medíocre. Caso se tornem complexas, as discussões devem atribuir as respostas a Deus. E ponto final. “Eis o mistério da fé!”

É preciso criar um sentimento coletivo, a dor comum, objetivos e bandeiras que constituam um “exército” em disputa, em guerra. O céu contra o inferno, Deus contra o diabo, amigos unidos contra o inimigo. A fórmula do bem contra o mal está nos contos de fadas, na Bíblia, nas epopeias, na educação infantil, na política e na segurança. É básica. Ter um inimigo bem definido e direcionar toda a ira e a revolta para ele alivia os conflitos estruturantes, como o desemprego, a exploração da força de trabalho, a carestia, as dores do corpo e da mente. O inimigo materializa o demônio. Atribua a ele a responsabilidade sobre aquelas coias que, no geral, incomodam os cidadãos pacatos: conflitos familiares, perturbação da ordem, violência, arruaças, desobediência, rebeldia.

Não valorize os prazeres. Restrinja-os e castigue aqueles que ultrapassarem as fronteiras. O sexo deve se limitar à reprodução. Seja rígido de tal forma que somente os fanáticos e obcecados consigam obedecer as regras. Aos demais cidadãos, crentes ou não, atribua um sentimento constante de culpa e uma necessidade orgânica de se pedir perdão: pelos deslizes, pelos atrevimentos, pelas alegrias. Tristezas, fracassos e desgraças são castigos naturais aos que ousam ir além dos limites estabelecidos pelos pastores: os pecadores. Quem pede perdão admite seu erro e quem erra merece castigo. Pastores e padres são carrascos que controlam seu rebanho com penitências cotidianas e promessas de recompensas depois da morte. Os castigos são reais e os conhecemos bem; as recompensas jamais serão comprovadas. Deus lhe pague!

Os líderes evangélicos buscam sucesso, poder e dinheiro. Sucesso na mídia, poder político e dinheiro no bolso. Ao escolherem os homossexuais como inimigos - a personificação do mal - tiram proveito de nossa popularidade para chegar à mídia e tornarem-se ainda mais peçonhentos.

Quando transformam seus delírios de restrição de direitos em projetos de lei, mesmo que inconstitucionais, e os apresentam no legislativo, deputados evangélicos consideram duas hipóteses que nos colocam em cheque: se desconsideramos suas malandragens e os ignoramos, eles desrespeitam nossos fundamentos, rasgam nossa constituição, transformam seus preceitos religiosos em leis e implantam uma teocracia. Se nos indignamos e fazemos alarde, damos a esses calhordas holofotes suficientes para levá-los à mídia e conquistarem a simpatia dos homofóbicos.

Não conseguimos derrotá-los e a suas propostas indecentes sem dar luz a quem jamais teria brilho próprio. Tornamo-nos os inimigos ideais. Na vitória ou na derrota, os conservadores saem ganhando. Mesmo que não consigam restringir nossos direitos, ganham o destaque do contraponto que lhes outorga espaço suficiente para ser usado contra nós mesmos. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

O universo paralelo LGBT - Fevereiro 2012




Existe um universo paralelo LGBT. Um mundo onde transitam gays e lésbicas que decidiram lutar organizadamente pelos direitos dos homossexuais. Uma rede de organizações que construiu um sistema de poder valioso, pelo qual alguns homossexuais se digladiam nas listas de internet, nas redes sociais ou nos inúmeros encontros, congressos e seminários que se propõem a buscar soluções para os problemas oriundos da homofobia. Os habitantes desse universo chegaram até aí por caminhos variados, mas é possível classificá-los a partir de padrões que se repetem.

Os freelancers são aqueles que perceberam e se indignaram com a homofobia a que estavam submetidos e se lançaram a corrigir o mal pela raiz, através do caminho que acreditavam ser o melhor. Com uma idéia na cabeça, reuniram alguns amigos, registraram uma associação e partiram para a ação. Não interessa se o coletivo de gays e lésbicas concorda ou não com as suas estratégias, suas posições políticas, suas alianças, ou se autoriza essa representação, se legitima sua forma de organização, seus métodos e seus fóruns de interlocução com o poder. Com ou sem apoio, os freelancers circulam pelos corredores palacianos, são recebidos e falam como reconhecidos líderes de todos nós.

Existem também os capitalistas, aqueles que viram na luta pela cidadania homossexual uma forma de levar alguma vantagem financeira, arrumar uma colocação profissional, um emprego. Um jeito de ganhar dinheiro sendo gay, assumindo e usando para isso o valoroso discurso da construção de um mundo sem preconceitos. Presenças constantes em Brasília, os capitalistas estão atentos às informações privilegiadas, às viagens financiadas, aos eventos da corte. Limitam-se a serem homossexuais, uma expertise que lhes foi forjada pela vida e vivem o glamour da militância, quando conjugam pinta, trabalho e dinheiro. Isso não significa, porém, senso democrático, capacidade de liderança, de articulação política, de gestão ou uma ascendência sobre a comunidade LGBT, mesmo que no nível local. Esses cidadãos montam uma ONG e trocam a causa pela caça ao dinheiro.  

Um terceiro tipo que habita o universo paralelo do movimento LGBT organizado são os desonestos. O atrelamento de ONG com políticos, partidos políticos e interesses individuais fez com que o financiamento do terceiro setor se tornasse uma alternativa para o desvio de recursos públicos, seja através de emendas parlamentares, de projetos estratégicos ou convênios pouco éticos e duvidosos. Os desonestos falam em nome do coletivo e oferecem um apoio político que não dispõem, em troca de recompensas que vão desde o financiamento de seus projetos aos simples convites para eventos que lhes dão a oportunidade de estarem próximo ao poder.

Finalmente, existem os inocentes, aqueles que chegaram a esse universo da militância acreditando na missão humanitária e comprometidos com um mundo melhor. Estão sempre distantes dos recursos, longe do poder, mas presentes no chão de fábrica, nas bases, garimpando as mínimas oportunidades para abrir o debate e enfrentando os homofóbicos de cada dia. São os indignados com as injustiças provocadas pelo preconceito, dispostos a colocarem seus talentos e seu know-how a serviço dessa causa e preocupados com uma efetiva mobilização em torno de bandeiras construídas coletivamente.

Poucos militantes têm conseguido construir uma ponte entre o mundo gay real e esse universo paralelo. Nossos ativistas não são reconhecidos como líderes, nosso movimento é uma incógnita, uma caixa preta de difícil acesso onde se guardam os mapas das minas, os caminhos das pedras, os apoios, as traições. São ilustres desconhecidos que surgem na mídia defendendo posições de todos, construídas por alguns.

Se os ativistas que se encontram à frente dessas organizações não se movem no sentido de construir democraticamente esse movimento, é importante que haja uma ação inversa e que gays e lésbicas se apropriem e acompanhem o xadrez de disputa política que se desenrola nesse outro mundo. Não para cortar cabeças ou substituir os indesejados, mas com um olhar de controle e participação, para que deixemos de ser representados por gestores de projetos e passemos a missão aos nossos verdadeiros líderes.

Publicado originalmente na H Magazine - #1

sábado, 10 de março de 2012

Oscar Gay - 10/3/2012


Ferramenta preciosa, se bem utilizada, as listas têm feito parte do repertório de estratégias de pressão dos movimentos sociais em todas as áreas. As listas sujas denunciam os incorretos e dão visibilidade a grandes momentos de desrespeito às causas que servem. As listas limpas valorizam grandes feitos e reconhecem atitudes dos que colaboram para um mundo melhor. Ter o nome numa lista suja pode macular sua imagem enquanto tê-lo numa lista limpa abre portas e angaria simpatia. Existem listas sujas e limpas do meio ambiente, do trabalho escravo, dos candidatos a cargos públicos, e a do movimento gay, criada e mantida pelo GGB - Grupo Gay de Bahia, uma das organizações campeãs na utilização do marketing de massa para promoção da nossa causa.

Portanto, não é de se espantar a enorme repercussão alcançada pela relação dos contemplados com o "Oscar Gay 2012", divulgada no dia 7 de março, quando se definem os vencedores dos troféus "Triângulo Rosa", aos simpatizantes; e "Pau de Sebo", aos opositores dos homossexuais.

Entre os contemplados com o "Triângulo Rosa" estão os Ministros do Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça pela legalização do casamento homoafetivo; os governadores Sérgio Cabral, Geraldo Alckmin e, por ter se pronunciado a favor do conturbado kit "Escola sem Homofobia", o mineiro Antônio Anastasia. Entre as celebridades, o ator Marco Nanini por assumir-se gay, os jogadores de futebol Edmundo e Toninho Cerezo, por declararem amor incondicional a seus filhos gay e transexual; o Arcebispo de Maceió e a Igreja Evangélica Luterana por apoiarem os direitos da população LGBT; os deputados federais Jean Wyllys e Romário e os esportistas Vanderley Luxemburgo e Bernardinho, por se oporem à homofobia.

Pau de Sebo

Já o "Pau de Sebo", a lista suja do GGB, caiu como uma bomba em Brasília: a presidente Dilma Rousseff encabeça uma lista de 36 famosos graças às trapalhadas do kit "Escola sem Homofobia" que culminou com seu veto e suas declarações autoritárias e excludentes, quando trouxe a si as decisões sobre qualquer ação governamental que envolvesse os "costumes". Ao seu lado, nao menos incorretos, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pela censura à campanha de prevenção à aids para gays no Carnaval, o Bispo de Guarulhos, o reitor da Universidade Mackenzie e uma dezena de deputados, senadores e vereadores por suas declarações homofóbicas. A lista inclui o ator Marcelo Serrado que, apesar de encarnar o estereotipado homossexual Crô, na novela global das 21h, declarou não concordar com a exibição do beijo entre dois homens na TV brasileira. A lista continua com o pugilista Minotauro, a Torcida do Palmeiras e outros.

Segundo o fundador do GGB e do Oscar Gay, professor Luiz Mott, “nunca, na história deste país, um presidente ganhou o Troféu Pau de Sebo. Lula e FHC foram homenageados com o Triângulo Rosa, e até Collor, por ter sido o primeiro presidente a falar em cadeia nacional no Dia Mundial da Aids”.

Mais que o vexame de ter o nome na lista do "Pau de Sebo", é importante que a sociedade debata o assunto, reconheça a posição de nossos líderes e celebridades e o quanto colaboram ou prejudicam a construção de um país sem homofobia.

Conheça aqui a lista completa e suas explicações.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Traídos - 1/3/2012




Um dos maiores homofóbicos e ponta de lança da bancada evangélica no Congresso Nacional, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), é o novo Ministro da Pesca e Aquicultura do Brasil. Apesar de não entender nada de pesca e nem de aquicultura, Crivella significa uma mudança no xadrez político federal, com a reabertura de espaço para o PRB. Sua ascenção ao primeiro escalão do Executivo intensifica o temor do crescimento das forças conservadoras e o retrocesso na garantia de direitos de grupos específicos, como os gays, os negros e as mulheres. O PRB é o partido do ex-vice-presidente José Alencar que se confunde com a bancada evangélica: foi criado pelo bispo Edir Macedo da IURD e é sustentado pelos dízimos ofertados pelo seu rebanho religioso.

O governo da presidente Dilma conseguiu desagradar tanto aos gays quanto aos evangélicos. O movimento LGBT se ressente do veto ao kit anti-homofobia, uma parceria desastrosa entre o MEC e a ABGLT que se transformou na primeira pedra no sapapto do ex-ministro da Educação e candidato do PT à prefeitura de SP, Fernando Haddad. Dilma, pressionada pelos evangélicos, vetou a distribuição do kit às escolas brasileiras. Alguns dias depois, vetou também os filmetes publicitários de incentivo ao uso do preservativo que seriam veiculados no Carnaval, por considerá-los demasiado ousados para exibição na TV aberta. O governo federal colocou em banho-maria qualquer ação voltada para a população LGBT, que, não por acaso, amarga os piores índices de homofobia e descaso de sua história.

A insatisfação dos evangélicos, na qual a entrada de Crivella tenta botar panos quentes, inclui também as críticas a Fernando Haddad, uma vez que o PRB intensiona lançar Celso Russomanno como candidato a prefeito de São Paulo, o que enfraquece a candidatura petista. Além disso, os evangélicos se incomodaram em pelo menos dois outros acontecimentos: a posse de Eleonora Menicucci na Secretaria de Políticas para as Mulheres e as declarações do secretário-geral da presidência, Gilberto Carvalho. Menicucci incomodou por suas posições polêmicas sobre os direitos das mulheres às decisões que envolvem seu corpo, entre elas a interrupção da gravidez. Carvalho, por seu discurso no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, quando afirmou que a classe média deveria se preparar para um confronto ideológico premente com os evangélicos. Com a ascenção de Crivella, às vésperas das eleições municipais, o governo tenta restaurar a paz oferecendo um ministério simbólico ao PRB e admitindo um homofóbico evangélico em seus quadros.

Os homossexuais brasileiros se sentem traídos pelo PT e pelo governo da presidente Dilma. Os ativistas do movimento LGBT que depositaram sua confiança no senso de justiça e modernidade de um governo de esquerda assistem perplexos ao descaso do executivo e do legislativo com nossas bandeiras, com nossas conquistas e à posição de protagonista do retrocesso que vimos assistindo.