sábado, 30 de julho de 2011

De Belô - 30/07/2011


Na semana passada, Belo Horizonte foi o palco de mais um marco na luta pelos direitos dos homossexuais, com a 14ª Parada do Orgulho LGBT de Belô.

Reunidos em torno da luta contra a homofobia, cerca de 200 mil pessoas marcharam pela rua da Bahia e a avenida Afonso Pena, com palavras de ordem, discursos políticos engajados e um sentido militante que tornaram ainda mais belo o horizonte da capital mineira.

Nas palavras dos muitos "ratos de paradas gays" presentes, um evento no qual a batida surda das músicas eletrônicas e sua euforia contagiante não conseguiram ofuscar o propósito maior estampado no slogan Chega de Mortes e Violência. Por um País Sem Homofobia!

Mas, afinal, o que faz uma boa parada gay? Sem dúvida nenhuma, as pessoas. É sempre bom rever os antigos e descobrir novos amigos; admirar os figurinos e a variedade de escolhas para manifestar o orgulho gay naquele dia de visibilidade plena.

Para muitos, as paradas são como rituais de saída do armário, os primeiros momentos de naturalidade e liberdade. A alegria que cerca as paradas gays não é gratuita.

Além de ver gente, quem vai à parada quer sentir um clima de luta, quer exigir seus direitos, quer gritar e ouvir palavras de ordem que traduzam sua indignação diante da homofobia, da negação de seus direitos fundamentais e do desrespeito, que ainda nos machucam tanto.

Quem vai à parada quer ouvir seus líderes e seus ídolos, quer ver o mundo gay sob a luz do dia, quer mostrar seu namorado, demonstrar seu afeto e cobrar o reconhecimento de seu amor.

Uma boa parada tem música boa, porque ela é elemento fundamental de qualquer comemoração. Uma música nossa, aquela que toca nos ambientes que frequentamos e que nos faz dançar e sorrir.

A Parada de Belô de 2011 teve tudo isso. Foi brilhantemente organizada mais uma vez pelos grupos LGBT de Belo Horizonte tendo à frente o Cellos-MG.

Contou com a presença dos grupos do interior e, segundo Carlos Bem, presidente do MGRV de São João del Rei, "a parada de Belo Horizonte tem papel central e valor simbólico para a população LGBT do interior". "É a parada da capital mineira que dá a visibilidade estadual para nossas lutas e fortalece nosso coletivo em MG", completa.

Belo Horizonte conseguiu construir, mais uma vez, uma parada política, bonita, alegre e positiva. Que sirva de exemplo para todo o país.

Camisinha sempre!

Foto: "Hoje em Dia"

sábado, 23 de julho de 2011

Pai e filho - 23/07/2011



Outro dia, fui alcançado por um comercial de TV em que o jogador Neymar passeia por uma praia paradisíaca e faz uma declaração de amor e reconhecimento a um outro homem: seu pai. A direção e o texto do anúncio são primorosos. O jogador aparenta naturalidade, e a troca de afeto entre os dois expõe a perpetuação de uma intimidade física que remonta à infância e que permanece entre os dois adultos. Pai e filho. Amigos.

Alguns dias depois, fui atingido por outra cena, desta vez, jornalística. Dois homens vítimas de agressões homofóbicas. Em São João da Boa Vista, a 225 km de São Paulo, durante uma exposição agropecuária, pai e filho foram barbaramente agredidos por sete trogloditas que não entenderam as manifestações de afeto entre os dois. Os marmanjos julgaram que fosse um casal gay pelo fato de andarem abraçados. Ambos ficaram com o corpo repleto de escoriações, e o pai, que preferiu o anonimato e apareceu somente em silhueta na reportagem, teve parte da orelha decepada por uma mordida.

As duas situações envolvem afeto entre homens adultos, no caso, pai e filho. Ambos estavam felizes, compartilhando um momento de carinho com seu camarada. No comercial, foi possível explicar o significado daquela ternura; na vida real, não. Na praia, um pai orgulhoso ao lado do filho; no jornal, um pai ferido que prefere se esconder.

Os dublês de religiosos e políticos dizem que não precisamos de uma lei que criminalize a homofobia, que queremos privilégios. Muitas vezes, ouvimos aqueles que nos condenam repetirem que a lei que torna crime o preconceito contra os gays deve ter um texto mais suave. Pastores, padres, deputados e senadores negociam concessões que inocentem os religiosos midiáticos que, em nome de seu credo, incitam a violência contra os homossexuais. Contra os homossexuais? Bem, foi preciso que um pai carinhoso perdesse uma orelha para que a população entenda que a intolerância homofóbica não atinge somente os gays.

Uma sociedade que admite o preconceito contra os homossexuais como parte de sua cultura e se cala diante de agressões como essa está arriscada à naturalização dos confrontos e ao seu próprio fim.

Não é quando o amor entre dois homens se manifesta que a família é colocada em risco. A família corre perigo quando o afeto entre pai e filho se torna motivo para uma agressão. Mesmo que por engano.

Camisinha sempre!



sábado, 16 de julho de 2011

Estudantes - 16/07/2011




Em Goiânia, no 52º Congresso Nacional da UNE. Cerca de 5.000 estudantes, a grande maioria universitários, estão envolvidos em quatro dias de atividades que irão culminar na eleição da nova diretoria da histórica instituição, tradicional fábrica de líderes políticos e porta de entrada para a trajetória de alguns dos grandes nomes do Congresso Nacional.

Paralelo a discussões, oficinas, arranjos, equilíbrio de tendências e articulações, um significativo aparato de tendas e barracas estão montadas no local, onde dividem espaço organizações políticas, órgãos governamentais e não-governamentais, vendedores de artesanatos, churrasquinhos e cervejas.

É a praça da pausa e, muitas vezes para alguns, a oportunidade de expor suas idéias, num evento onde todos esperam a oportunidade de falar e poucos têm acesso aos poucos microfones.

No estande do Ministério da Saúde, além da distribuição de cerca de 10 mil preservativos, folhetos informativos sobre DST e Aids e do trailer "Quero Fazer", onde os jovens podem se testar para o HIV, um microfone aberto convida ao debate sobre a importância do envolvimento da juventude universitária na promoção do respeito à diversidade e no combate à homofobia, um dos principais fatores de vulnerabilidade dos gays e outros homens que fazem sexo com homens, principalmente entre os jovens.

Ao acompanhar a atividade, a primeira conclusão a que se chega é que o assunto atrai os estudantes, a grande maioria com sentimentos de solidariedade e sonhos de um mundo melhor, sem preconceitos, mais justo e mais ético. Além disso, muitas dúvidas sobre prevenção e riscos apontam para a necessidade de se levar mais e melhores informações sobre Aids e DST aos estudantes.

Salta aos olhos o quanto o machismo ainda se encontra enraizado na mentalidade dos rapazes. Alguns não se intimidaram em expor pontos de vistas que se julgavam extintos, como colocar filhos homossexuais para fora de casa, castigos físicos e reação violenta à abordagem de um gay.

Mais lamentável ainda foi perceber o temor e a ansiedade da grande maioria dos jovens durante os 30 minutos que aguardavam o resultado dos testes do HIV. Resultado de muitas imprudências sexuais e dificuldades em adotar o uso regular e constante do preservativo.

Camisinha sempre!

sábado, 9 de julho de 2011

Eventos - 09/07/2011



Minas Gerais se prepara para sediar dois importantes eventos cujo foco principal será a Aids e os gays e HSH (homens que fazem sexo com homens). Ambos são organizados pela sociedade civil e foram aprovados pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde no recente edital de apoio a eventos nacionais e regionais sobre o tema.

De 4 a 7 de agosto, as atenções se voltam para São João del Rei, onde acontecerá o 1º Encontro Sudeste de Jovens Gays e HSH. A ideia do MGRV (Movimento Gay da Região das Vertentes) é discutir as políticas de prevenção focadas nesse segmento. Cerca de 50 jovens gays debaterão suas principais dificuldades no enfrentamento da Aids e os fatores que os tornam um dos segmentos em que a epidemia mais cresce.

"O poder público ignora a forma como os jovens veem o mundo e se comunicam. As ações de prevenção da Aids hoje não refletem nossa realidade e não conseguem sensibilizar os jovens gays para se cuidarem", declara Carlos Bem, presidente do MGRV e coordenador geral do evento.

Os debates se estenderão à defesa dos direitos humanos e à falta de políticas descentralizadas e efetivas de combate à homofobia.

"Poucas prefeituras estão comprometidas ou possuem planos municipais de enfrentamento da epidemia ou políticas de direitos humanos. Isso contribui muito para o crescimento da fragilidade dos jovens gays diante das DST e da Aids", completa.

Logo depois, de 17 a 19 de agosto, Juiz de Fora receberá o 1º ENGAIDS - Encontro Nacional de Gays e HSH. Com o tema Desafios para a Prevenção às DST - Aids - HIV, o evento espera atrair 150 participantes de todo o país.

"Os maiores especialistas no assunto estarão debatendo e propondo ações específicas para os homens que têm relações sexuais com outros homens, entendendo que a abordagem da prevenção e as características da epidemia são diferentes entre gays, lésbicas, pessoas trans e bissexuais. O foco do ENGAIDS está nos gays e bissexuais, nos quais os dados mostram uma maior concentração da epidemia", justifica Marco Trajano, presidente do MGM - Movimento Gay de Minas, ONG que está promovendo o evento.

Segundo Trajano, apesar dos esforços, as pesquisas mostram que a situação entre gays e HSH continua grave. "Ainda representamos 40% dos homens infectados pelo HIV. As pesquisas mostram que a prevalência do vírus entre gays e HSH atinge 10,5%, índice bastante significativo quando comparado aos 0,8% de infectados entre homens heterossexuais na mesma faixa etária", aponta. O ENGAIDS acontece paralelamente ao tradicional Rainbow Fest e conta com o apoio do programa de Aids da Prefeitura de Juiz de Fora.


Camisinha sempre!

sábado, 2 de julho de 2011

Inimigos - 02/07/2011

Deus arma seu povo para lutar contra os inimigos

Nós não estamos criando caso com ninguém. Estamos aqui, no nosso canto, amando os nossos amores, cavando espaços, sobrevivendo e defendendo o nosso direito de sermos cidadãos no mesmo patamar que os não homossexuais.

Não estamos tirando o direito de ninguém. Não estamos destruindo nada, não queimamos livros, não condenamos opções. Somos cidadãos como todos que vivem em cidades e usufruem dos serviços que elas nos oferecem. Queremos ser bem tratados, gentileza, solidariedade, empregos, como qualquer brasileiro. Estamos em todas as profissões, em todas as raças, em todas as famílias. Temos nossos momentos de alegrias e tristezas, temos talento para algumas coisas e carecemos disso para outras. Alguns de nós somos do bem; outros, nem tanto. Alguns estão livres; outros, presos. Alguns se sentem livres; outros, presos. Somos gente como todos, somos indivíduos como qualquer um.

Nunca fomos para portas de igrejas protestar contra seus ensinamentos homofóbicos. Escolhemos um fórum laico para nossas reivindicações: o fórum dos direitos, das leis, da Constituição.

Fomos escolhidos como inimigos prioritários de algumas religiões que se sentem ameaçadas pela nossa forma de amar e pelo objeto do nosso amor. Fomos conduzidos a uma guerra insana que nos coloca acorrentados num paiol de pólvora a cada dia mais explosivo.

As mensagens religiosas de condenação dos homossexuais têm atraído multidões em torno de bandeiras que visam não reivindicar direitos, mas retirar os nossos. O discurso homofóbico da deputada carioca cristã Miriam Rios, que circulou nesta semana pela internet, ou os gritos inflamados de pastores midiáticos contra os homossexuais têm criado um ambiente social efetivamente perigoso para nós. A forma como o assunto é abordado pelos religiosos em seus cultos e manifestações coloca em risco a nossa integridade física e em dúvida a caridade cristã.

Ninguém tem o direito de ir às ruas reivindicar o direito de manifestar preconceito, de discriminar. Nossa Constituição proíbe isso. É preciso revisitar os conceitos de democracia, civilidade, laicidade e respeito e controlar a violência que vem embutida no discurso dos que nos condenam como pecadores.

Camisinha sempre!